terça-feira, 17 de novembro de 2009

If I trust in you, oh please, don't run and hide.

Ela tinha cachos, medo e um violão. Tinha também, nas mãos, uma revelação que acabara de ser entregue por mim. Sobre todos os momentos que passamos juntos, fossem contatos frágeis de corredor ou lapsos de pequenas loucuras ao cantarmos Eleanor Rigby com o máximo de intensidade que a nossa garganta permitia, naquele momento eu a fazia ver tudo sob um ângulo diferente, o meu ângulo, o ângulo que eu imaginava como sendo nosso. Seus olhos fecharam-se, como quem procura ver o passado olhando pra dentro de si. Principiei uma frase que ficou solta no ar, soando baixinho. Ela interrompeu: por favor, não fala nada. Silêncio. Meu vigor de rapaz jovem e robusto se perdia na grandeza de qualquer gesto que ela fizesse. Estava atônito, indefeso, à espera de qualquer reação, quando as cordas nervosas começaram a soar. Era If I Fell, saindo do violão lentamente, da maneira mais simples que eu já havia escutado. A melodia escorregava naquelas cordas, tocadas por mãos ligeiramente trêmulas, e ela não precisou falar nada pra que eu entendesse. Sua voz não saiu, mas a letra daquela canção ecoava na minha cabeça como uma clara mensagem avisando que eu seria, dali pra frente, o homem mais feliz do mundo. Os movimentos dos dedos pararam, mas não largaram o braço do violão. Olha pra mim, ela disse. Tive vontade de abraçá-la e dizer que eu jamais permitiria que ela se sentisse sozinha novamente, mas, dessa vez, foi a minha voz que teimou em não sair. Apenas olhei-a profundamente, como quem mergulha num oceano de infindáveis sensações.

domingo, 15 de novembro de 2009

A provação.

Sabe quando você está num ano de teste? Mas, assim... Teste de fogo, mesmo, no qual todos os limites em todos os campos da sua vida estão sendo postos à prova? Sejam os limites de resistência, como quem impõe situações desagradáveis só resolvíveis com muito jogo de cintura, muitos suspiros e muita força. Limites sentimentais, definhados e extintos até a última gota, como quem retorce um pano de chão insistentemente até que ele fique mais seco e fino do que palha. Limites de pensamento, como quem te rouba todas as idéias e as toma pra si, transmutando-as em algo absolutamente diferente do pensado por você mesma e dedicando-as a destinos visivelmente errados. Limites de espera, como quem chega logo após um cometa passar e sabe que ele só virá novamente daqui a alguns milhares de anos. Limites de boa vontade, quando você tem que sorrir mesmo após levar um golpe tão doloroso quanto uma punhalada no peito. Limites de decepções, como quem promete um prato de comida a uma criança faminta e depois tira o mesmo da frente dela, sem nenhuma explicação. Limites de consciência, como quem se infiltra no seu cérebro e faz questão de só fazer a memória recuperar os momentos em que você falhou com as outras pessoas.

Posso dizer que fui testada de todas essas maneiras e de muitas outras que eu sequer lembro agora. Alguns desses limites foram excedidos, venceram-me. Mas creio que nem todos, pelo menos até agora. Só sei que é madrugada - momento propício às artes, segundo os literatos - e eu ainda aqui. Acordada, elétrica, literária.

"Preciso de um colo que ninguém dá. Mas tudo bem."
Acho que, quando essa frase foi escrita, uma cena como a minha estava na mente do autor. Talvez. A parte do "Mas tudo bem" não nega. Eis a beleza dos contrastes.
Vou ali morrer um pouco, mesmo que provisoriamente. Amanhã volto à vida, retomando aquele otimismo tão necessário pra suportar todos os testes que a vida acaba nos impondo.

2009 pode ter sido um ano de provações que, até agora, parecem estar me vencendo.
Mas tudo bem, o ano ainda não acabou.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Das lições que encerram fábulas.

Sabe aqueles dias em que reviravoltas vão e vêm deixando como saldo uma moral da história? Ontem foi um desses dias. Um dia-fábula, pra ser mais precisa.

Vestibular chegando. Tensão no ar em tudo ao meu redor, exceto em mim. Não sei se pela pseudo-segurança que os bons resultados nos simulados me deram ou se por um pressentimento quase mediúnico de que coisas boas estão a caminho, o fato é que a tranqüilidade ainda se estabelece aqui dentro. Ainda. A prova acontecerá em alguns dias, daqui pra lá eu não garanto. Enquanto isso, vou torcendo pra que alguns amigos façam prova no mesmo local que eu. No mais, o que tiver de ser, será.

Uma das minhas atitudes adotadas recentemente tem sido a de não esperar mais nada das pessoas. Nem coisas boas, nem coisas ruins. Deixar a “mente em branco” pro que quer que aconteça. No decorrer do ano, algumas pessoas me surpreenderam absurdamente. Você leva a sua rotina normalmente, tenta encarar tudo da melhor maneira, reclama o mínimo possível dos ônibus lotados, da matemática irritante, da física insuportável, do cansaço, da quantidade astronômica de informações, da imensa decepção que algumas atitudes proporcionaram, dos problemas dos amigos, enfim.

Aí vem uma pessoa pra quem você nunca dedicou a mínima atenção e te fala uma coisa boa que fica ali. Aí vem um colega de sala, com quem você mal conversa, e diz que se espelha nos livros que você lê. Aí vem um professor de biologia, de cuja aula você nem gosta tanto assim, e diz que acredita em você. Que daqui a vinte anos ainda vai lembrar de você (isso o futuro dirá e eu vou fazer questão de constatar), que acredita no seu esforço e no seu bom caráter, que você é uma das pessoas com quem ele nunca falou mas que é alvo de uma admiração enorme pelo seu jeito de ser e pela sua organização, e mais um monte de outras coisas que foram ditas exatamente numa época em que você tanto precisava ouvir palavras boas, que não foram ditas pelos que você mais esperava, mas que te fizeram crer que o bem vem de lugares inesperados. Aí vem aquele novo amigo e divide uma barra do seu chocolate preferido enquanto espera, cansado, pelo início do aprofundamento de História. Aí vem a lembrança daquele saudoso rapaz tão querido que ficava do seu lado durante todas as aulas, que só andava com você se fosse de mãos dadas e que costumava ter um dos abraços mais confortadores daqueles dias. Lembrei que vai fazer um ano que não nos vemos. Onde estaria ele agora?

Perdemos as pessoas com uma facilidade inacreditável. Como diria o Caio, meu “psicólogo” que eu sempre gosto de citar: “Uma pessoa, quando tá longe, vive coisas que não te comunica, e tu, aqui, vive coisas que não a comunica. Então, vocês vão se distanciando e, quando vocês se encontrarem, vocês vão se falar assim: oi, tudo bom e tal, como é que vão as coisas? E aí ele vai te falar, por cima, de tudo que ele viveu, e, não sei, vai ser uma proximidade distante. Não adianta, no momento em que as pessoas se afastam, elas estão irremediavelmente perdidas uma da outra. Lembrando daquela companhia que me fazia tão bem e me dando conta do vazio que se estabeleceu com a sua ausência, vem a vontade de retribuir as gentilezas de agora. Seja com sorrisos no corredor, com mais chocolates, com dicas de outros livros ou com pedidos atendidos. No caso especial do professor de biologia, que passou o ano inteiro implorando pelas anotações que eu sempre faço no caderno, ele teve o seu pedido atendido. Separei tudo, organizei numa pasta e entreguei ontem. Recebi, como retorno, um sorriso que parecia não acreditar no que acontecia - como quem constata que o bem realmente vem de lugares inesperados -, planos de utilização do meu presente nas aulas do ano que vem, um agradecimento e a pasta que eu tinha comprado de volta. “As folhas já são mais que suficientes”.

A sensação que fica depois desses acontecimentos é extremamente boa. Por mais que isso se perca no turbilhão da memória com o passar do tempo, pequenas atitudes assim nos fazem pensar um pouco mais no sentido dos nossos atos. A questão do caderno passa longe de qualquer pose de “aluna exemplar”, porque eu estou distante disso. É mais uma confirmação de que a gente recebe aquilo que a gente dá, e, se pudemos fazer algo que vá deixar uma outra pessoa feliz, por que não fazê-lo? Por que fugir e ter medo ou vergonha ou receio de outras interpretações? Seres humanos não mordem e o que vale sempre é a sua própria consciência. Vim pensando nessas circunstâncias no caminho de casa, sobre o quão ridículos alguns atos podem se tornar e sobre a facilidade com que situações desagradáveis poderiam ser evitadas se fossem tratadas com um mínimo de naturalidade, sem parecer nenhum teatro fajuto de quinta categoria.

Em meio aos meus habituais mergulhos no interior de mim, como quem não cansa de afogar-se em mares intermináveis, recebo uma ligação. Uma amiga que eu não vejo há mais de um ano e que conheci no meio artístico pertencente aos amigos da minha mãe deu-me o melhor presente que ganhei durante todo o ano: uma contribuição significativa pra minha biblioteca, 25 livros. 5 Clarices, que já valeram quaisquer outros títulos que as acompanhasse. Neruda, Freud, Machado, Drummond. Junto a eles, um porta-jóias e muitos chocolates. A parte mais simbólica de todo o presente, os chocolates, fez-me pensar que eu sempre fiz isso pra muita gente, mas nunca tinha recebido algo do tipo – tão simples, mas tão bonito – de ninguém.

Acho que ganhei o ano. É, talvez. A lição que fica de toda essa fábula é a que eu vou continuar praticando: Apenas flutue, tendo como base a leveza da sua consciência, sem nada esperar. Na maioria das vezes, quem muito promete, nada cumpre. Esteja pronta pra se surpreender positivamente com algumas pessoas que sequer faziam parte dos seus pensamentos mais banais. Faça o possível para provocar sorrisos em quem merece e se policie para não criar esperanças com relação a nada nem a ninguém. Quem faz uma vez, não necessariamente faz duas. Mas quem faz dez, com certeza faz onze. O que nos resta depois do fim, depois de tudo, são as lembranças. Melhor agarrar-se a elas e desprender-se das ilusões, profundas e enganosas feito o mar.

domingo, 8 de novembro de 2009

Cem anos de perdão.



De repente me deu uma vontade de vê-la. Foi daquelas vontades que surgem do nada, como desejar tomar aquele sorvete que só tem na casa da sua avó, a kms de distância da sua cidade. Não, não, a vontade não vem do nada, vem da falta. Como faz falta ouvir a voz dela. Se o problema fosse sorvete, eu esperava as férias, pegava um ônibus e casava a visita aos familiares distantes com o gelado delicioso. Mas meu problema é outro, bem mais sério. Eu sinto saudades dela. E, diferente do sorvete, eu não posso simplesmente pegar um ônibus e fazer-lhe uma visita. Ela se transformou num poema calmo e tranqüilo. Não quero agora lembranças. Elas já estão muito bem guardadas nos álbuns do armário, nas cartas e na minha memória. Antes eu queria saber por que a luta dela não durou mais. Hoje já não me faz diferença. Adianta uma folha brigar e se desgastar, lutando para não cair da árvore no outono? Elas simplesmente vão ao chão. Mesmo caindo, elas têm graça e leveza. Mesmo no chão, têm a pureza e a beleza de uma folha. Não menos importantes pelo fato de terem caído, mas sendo assim, caducifólias, na sua essência. Eu quero poder abraçá-la novamente. E vê-la nos Natais, nas Páscoas e em outras datas comemorativas em que éramos presenteados com a sua presença. Eu quero falar-lhe coisas que não disse, só mais um 'Obrigado por tudo', pra enfatizar. Apesar de tudo, me sinto bem. Sinto lá no fundo que ela sabe de tudo isso. Porque alguns poemas (os mais sábios) conhecem muito mais o poeta do que o poeta conhece o poema. Eu não tenho dúvida nenhuma de que ela se transformou num desses sábios poemas, que são breves e levam consigo um significado infinito. Como é infinita a minha saudade. Hoje ela já não dói, é somente saudade, falta, lágrima, sem dor, sem cheiro, sem arrependimento. É saudade que não passa. É saudade, não medo. É conhecimento, quase tácito, de que ela está bem. Pois sinto que, onde está, ela respira ar puro, sorri e brinca no poema e na lua, com o bochechudo Raul.



Como se pode perceber, andei me esquivando da escrita. Para preencher o vácuo deixado pela falta de escapismo exigida por mim mesma, ando lendo bastante. Tudo o que posso, nos lugares mais inimagináveis. Coleciono fragmentos de textos que encontro por aí e guardo num documento do Word. Há inúmeros exemplares de trechos com os mais diversos significados e eu sempre tomo o cuidado de anotar o autor ou a fonte de onde foi extraído o exemplar da minha coleção. Nesse caso aí de cima, não há o nome do autor. Não lembro por qual razão, talvez tenha achado num site sem uma autoria definida ou talvez tenha sido o puro esquecimento que se faz cada vez mais presente no decorrer dos meus dias. Mas que fique bem claro que eu não sou ladra de palavras e que precisava postar aqui por achá-las de uma beleza absurdamente singular. O ditado não se aplica diretamente a mim, mas talvez eu tenha os meus cem anos de perdão por essa falha de dados nos meus trechos colecionados. 

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Desenho em sépia

Ah, os fins de tarde de um feriado. É estranho andar pelas ruas de um bairro calmo depois de tanto tempo de correria. As sombras se espreguiçam enquanto famílias se reúnem nas calçadas, a tarde parece não querer ir embora. Os ares de interior são trazidos pela moto do gás que passa com seu chocalhinho irritante, pelo bolero ouvido pelo grupo de senhores saudosos dos tempos passados, pelas crianças jogando bola na praça. Passo por ali como quem é transportada de uma dimensão cheia de engarrafamentos e prédios altíssimos para uma tarde qualquer dos tempos da minha infância, ou mesmo da infância das gerações passadas. Não podia me ver ali, mas tenho certeza de que o sol iluminava meus olhos, cabelos e mãos de maneira diferente.

Até que apareceu aquela casa. Hoje é uma empresa qualquer, uma fachada comercial praticamente irreconhecível, mas há poucos anos era o lugar pra onde eu me dirigia em praticamente todas essas tardes preguiçosas. Fazíamos música e os pássaros quase sempre nos acompanhavam. Parei e olhei pelo pequeno espaço lateral do portão como fazia antigamente, pra ver se havia algum aluno e tocar a campainha sem atrapalhar a peça que por ventura estivesse sendo tocada. Não havia aluno algum, pessoa alguma, música alguma. Só nas reminiscências, que guardam tudo com uma precisão incrível.

Saí daquela rua tão leve que cheguei a temer ser levada por algum vento matreiro que resolvesse aparecer pra dissipar meus pensamentos. Enquanto isso, meus passos me levavam a um lugar qualquer, alvo da resolução de algumas burocracias relativas à minha Vida Fora Dos Feriados. “Tem que aproveitar o tempo livre”, todos sempre me dizem. E é verdade. Aproveitei pra rever um lugar que não via há tempos, senti a pouca luz do Rei Maior me iluminando antes de se despedir de nós e ir rumo a mais um expediente de energia direcionado a outro lugar. Pra mim, poder presenciar esse momento é um privilégio. Ar condicionado, lâmpada fluorescente e sala fechada me roubam os fins de tarde todos os dias. Quando saio, sempre é noite, e a sensação de que falta um pedaço do meu dia não me abandona de jeito nenhum.

Depois de resolver as pendências, fiz questão de passar por alguns livros. Li sinopses, comparei preços e até tive a pretensão de juntar alguns pra medir o espaço que ocupariam na minha futura estante. E, assim, despedi-me de um raro feriado: medindo os espaços que objetos, emoções e idéias ocuparão na minha vida de hoje em diante. Amanhã o meu mundo volta ao normal, recheado de ônibus lotados, braços cheios de livros, sons de buzinas e a boa e velha pressa, sempre constante.

domingo, 11 de outubro de 2009

Here comes the sun, little darling.

Me sinto querida quando levanto todos os dias e tomo café com o melhor pai do mundo.

Me sinto querida quando atendo àquela ligação que ocorre religiosamente todos os dias e falo sobre a minha rotina com a melhor mãe do mundo.

Me sinto querida quando sei que sempre vou ter aquela amiga-irmã mais incrível do mundo que me conhece ao ponto de adivinhar meus pensamentos e que sabe que ocupa um dos lugares mais lindos da minha vida.

Me sinto querida quando estou na biblioteca do cursinho, imersa em livros, e o tiozinho do corredor entra lá só pra falar comigo, perguntar como eu tô e continuar o seu trabalho.

Me sinto querida quando recebo algum tipo de mensagem de alguém com quem eu não falo há muito tempo, com uma simples pergunta e uma simples afirmação: “ei, você tá bem? saudades, adoro você.”

Me sinto querida quando posso escrever pra outra amiga-irmã, aquela da risada engraçada, dizendo que a amo incondicionalmente, e quando escuto as nossas gravações de tantas tardes simples e incríveis.

Me sinto querida quando estou andando pelo corredor levando um monte de livros e aquele professor de História que tanto me fez crescer e a quem eu tanto admiro me faz um carinho respeitoso ou um aceno de cabeça, me chama pelo nome ou me trata por “filha”.

Me sinto querida ao ver que aquela minha outra amiga-irmã, a que me fez gostar de sushi e tem um dos melhores abraços do mundo, sempre sabe o que dizer pra me fazer ficar melhor em qualquer situação.

Me sinto querida quando o professor de Literatura olha pra mim ao perguntar se alguém escreve poemas e diz: “aquela ali, eu sei que escreve”.

Me sinto querida quando lembro daqueles dias tão distantes em que ganhei meu chocolate preferido na páscoa e virei as madrugadas de carnaval dando prejuízos à tim.

Me sinto querida ao constatar que algumas pessoas que eu nem conheço fora do mundo do orkut têm um apreço tão grande por mim.

Me sinto querida quando releio as minhas cartas, sejam as recebidas ou os rascunhos das enviadas (ou não), e lembro do significado que cada uma daquelas palavras traz consigo.

Me sinto querida quando passo dias e dias pensando em algum presente pra alguma pessoa que me faz sentir querida, quando esse presente é dado e quando eu recebo um grande abraço de agradecimento e tenho a certeza de que acertei na escolha (tanto do presente quanto da pessoa).

Me sinto querida quando vejo algumas palavras de carinho inesperadas que aparecem numa simples página virtual.

Me sinto querida quando o professor de Biologia diz que existem pessoas que marcam a vida da gente e que eu sou uma delas.

Me sinto querida quando os meus amigos elogiam a minha voz, mesmo quando está desafinada.

Me sinto querida quando vejo que o meu gato está esperando ansiosamente pela minha chegada, e quando ele fica ao meu lado o tempo inteiro e olha pra mim como quem diz um simples “gosto de você”.

Me sinto querida quando alguém diz que lembrou de mim ao ouvir uma música de que eu gosto muito.

Me sinto querida quando posso sentir lágrimas de felicidade escorrendo pelo meu rosto ao lembrar de todas essas pequenas manifestações de carinho que muitas vezes são distribuídas sem perceber e que me fazem sentir tão leve quanto um pensamento bom.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Incontinência verbal, palavras atrasadas e querenças de um novo ano.

Pensei em fazer um pedido, era meu aniversário. 
Mas não tinha nada para pedir. As coisas vivas, pensei, as coisas vivas não precisam pedir.
Eu estava ali, onde eu deveria estar. Inteiro. Como uma gota de mercúrio.
(Caio Fernando Abreu)


Resolvi não fazer um texto de aniversário este ano. Na verdade, não chegou a ser uma resolução... Talvez tenha sido mais uma constatação simplória devido à falta de tempo e à economia de palavras que eu mesma tinha me prometido que faria em vários aspectos. Então, que aconteça um texto de pós-aniversário. Aliás... Só um ou dois parágrafos. Texto não, que texto é muito longo e o sono é grande e o dia amanhã é cansativo. (Dia cansativo, redundância, pff.)

Sabe o que eu quero de mim? Quero mais eu. Mais livros, mais espaço, mais músicas novas. Que, no ano que está chegando, eu possa ter uma estante nova pra acomodar meus novos conhecimentos e novos espaços, bem grandes e bem aconchegantes, pra acomodar novas pessoas especiais que estão chegando, seja pra compartilhar um lugar com os que permanecem ou mesmo pra ocupar o lugar dos que quiseram ir. Quero ainda mais força pra não me deixar abater pelos muitos problemas que insistem em querer me derrubar. Quero que mostrem que eu estou totalmente errada quando digo que não tenho coração até que me provem o contrário. Que 2010 traga essa prova contrária. Quero ter saudades da minha rotina deste ano, quero ter saudades dos meus professores tão queridos e das pessoas que, hoje, estão comigo todos os dias e que voarão para outras paisagens. Quero novos livros, quero viajar, quero aprender piano. Quero me enganar positivamente, quero me surpreender e quero ser um pouquinho feliz. Nem precisa ser muito não, é só pra vida ficar um tiquinho mais colorida por si só, sem que eu precise fazer esforços pra ver as cores que nem sempre existem.

No mais, pra não me exceder (acho que já virou um texto... ai menina, se controla), melhor mesmo é deixar uma frase daquele que vai me acompanhar com suas palavras pelo resto desta noite solitária de sexta.

"Colei aquele 'eu amo você' no espelho. É pra mim mesmo."

P.S.: é, também é do Caio.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Da falta de tempo e dos escritos antigos.

Tenho permissão para morrer de amor de vez em quando
E falo, e choro, e canto
Ouço músicas significativas e escrevo poemas
Penso: e agora? e a cor? e a luz?
Morro em mim enquanto tudo foge
A noite que me engole, solitária companheira
Depois que se esvai, leva tudo com ela
Os poemas nunca lidos, rasgados
As músicas, escondidas num canto obscuro de memória
As palavras correm como se nunca tivessem existido
O dia já se apresenta como um acalento prometido

Pronto.
A permissão acabou, é hora de ser forte.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Por não estarem distraídos

Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria e peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque - a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras - e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. Como eles admiravam estarem juntos!

Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos.

(In "Para não esquecer", Lispector)

terça-feira, 29 de setembro de 2009



Pois é, a bruxa tá solta.

terça-feira, 8 de setembro de 2009


Suba os degraus, dê asas à música.

domingo, 6 de setembro de 2009

Cacos.

A noite de sábado seguia, alegre. O céu estrelado era convidativo, mas não conseguia atingi-los completamente. Um jardim de uma praça qualquer nas proximidades do escritório, escolhido para um descanso pós-expediente, parecia o cenário ideal. Bicicletas, livros, violões e bancos de madeira acompanhavam a trajetória daqueles dois. Estavam ali, sentados na grama, negando tudo o que aquele lugar oferecia, incluindo a alegria da noite que avançava. Dois colegas de rotina, de corredores, de cafezinhos. Duas porções de cacos de porcelana, restos de algo bonito em outros tempos, que, mesmo sabendo que a recuperação total nunca seria possível, ansiavam por um método revolucionário qualquer que os fizesse voltar ao estágio anterior às inúmeras quebras.

Ele bebia. Não por questão de inflar seu ego perante outrem, mas por estar acostumado à doce companhia do álcool e por não ver nada de mal em beber um pouco quando se tem vontade. Ela também bebia. Não por influência alheia, mas por puro e simples escapismo. Que há de mal em usar de artifícios para aliviar os problemas terrenos, desde que não se exagere e não se tenha a lucidez completamente perdida? Os dois concordavam: nada.

E tudo. Concordavam em praticamente tudo. E a pequena garrafa de vodka ali, concordando com eles. Sobre as questões existenciais e sobre as tentativas de exercer algum tipo de arte que faça desse mundo algo menos hostil. Naquela noite de sábado, os dois conseguiam brilhar. Segundo alguns, tinham luz própria. Sempre muito admirados pelos amigos. Sempre muito elogiados (mesmo com uma leviandade escancarada) pelos falsos colegas.

Ela já fazia declarações menos calculadas. Chegou-se ao assunto mais delicado: a existência (ou não) do Amor. Ele, por estar mais acostumado aos efeitos que a bebida causava, percebia que ela já estava ligeiramente alterada. Resolveu, por si, parar. Continuou a ouvi-la soltando dores de outros amores e falou daquela outra que o transformara em tal amontoado de escombros. Derramou o que havia no âmago de si sobre aquela velha circunstância, que há muito saíra de seus dias. Ela, de falante compulsiva, passou a ser ouvinte exemplarmente atenta. Talvez fosse hora de um teste.
- Quer saber? Vou ligar pra ela. Preciso falar o que tá preso na minha garganta.
- Cala a boca! Você tá aqui comigo, não vai ligar pra ninguém. Se eu conseguir que uma pessoa esteja em minha companhia sem pensar em mais ninguém pelo menos uma vez na vida, já me dou por satisfeita!
“Ela é intensa mesmo, mas acabou de demonstrar sua fraqueza”, pensou, rindo por dentro. “Talvez seja o álcool, talvez sejam os próprios cacos, despertados de seu silêncio sepulcral.”

O tempo passava arrastado, as estrelas sentiam inveja do brilho daquelas palavras que jorravam pela grama. Alguns existencialismos mais tarde, ela demonstrava sonolência. Acabou dormindo nos braços dele, que só então visualizava com mais clareza os tênues traços que se manifestavam naquela mulher tão independente, tão competente, tão segura de si. Um leão, que arranca as próprias entranhas para livrar-se de um sofrimento qualquer, se preciso for. Mas que ali, imersa nas trevas do que já era madrugada, reluzia como um filhote inofensivo que não pedia nada além de atenção e de carinho.

Levou-a até sua casa. Assegurando-se de que estava tudo bem e deixando claro para a família dela que a sonolência se devia muito mais ao cansaço do que à bebida propriamente dita, saiu. Ganhava distância e perdia luz, conforme os ponteiros do relógio caminhavam.

No dia seguinte, levantou-se no horário habitual e ocultou seu brilho na costumeira máscara de regras sociais. A mesma rotina, os mesmos corredores, os mesmos cafezinhos. Mas ela não estava lá. Provavelmente, dormira mais que o habitual. Com um ar de desinteresse, perguntou à melhor amiga dela se estava tudo em ordem. Sim, estava. Na mais perfeita ordem, só houvera um pequeno atraso. Deveria estar a caminho. Como sempre, eficiente e responsável. Ele perdia-se em indagações sobre a noite anterior, será que ela lembraria de tudo? A mesma amiga, depois de observar longamente a feição dele, tomou coragem e perguntou:
- Tem alguma coisa te preocupando? Tá com um ar pensativo.
- Não, não. Nada.

E sorriu. Assim, de canto de boca, como quem descobre a solução para um quebra-cabeças feito de cacos de porcelana.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Uma pequena conclusão:

As minhas anotações de outrora já não fazem mais sentido.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Das questões da vida.

MOTE

Quem ora soubesse
onde o Amor nasce,
que o semeasse!

VOLTAS (GLOSA)

D'amor e seus danos
me fiz lavrador
semeava amor
e colhia enganos;
não vi, em meus anos
homem que apanhasse
o que semeasse
[...]
Com quanto perdi,
trabalhava em vão;
se semeei grão
grande dor colhi.
Amor nunca vi
que muito durasse,
que não magoasse.


Questão 54: Do ponto de vista da temática desenvolvida no poema, pode-se afirmar que:
a) "Quem semeia ventos, colhe tempestades" é um provérbio que resume a ideia principal do poema de Camões.
b) o fato de que aquilo que se semeia é o oposto daquilo que se colhe está ligado ao desconcerto do mundo.
c) as metáforas agrícolas ligam o poema aos temas bucólicos, que foram retomados pelo Arcadismo mais tarde.
d) a ideia principal é a de que é preciso aproveitar o momento presente já que inevitavelmente colheremos sofrimentos.
e) o tema do poema é que o amor não existe.


Enquanto isso, na conferência do gabarito...

- Como assim?! Não acredito que não é o item E!
- Tu marcou o E? Eu fiquei em dúvida entre o E e o B.
- Pois é, de certa forma eu também pensei no B. Mas é ÓBVIO que é o E, pôxa!
- No gabarito diz B.
- Mas o amor não existe, Lidiane.
- Não confunda sua vida sentimental com a prova, flor.
- Hahaha, preciso me lembrar disso. *suspiro* Hunf. Mas pelo menos a questão eu queria ter ganho.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Ao som de Marisa Monte.

Não sei mais. Já soube, já quis saber, já me importei. O fato de continuar me importando às vezes só me mostra o quanto eu ainda consigo ser ingênua. Logo eu, tão forte, sempre aguentando calada tanta barra... Mas, do nada, vem aquela vontade incontrolável de chorar. Assim, no meio da rua, sem motivo aparente. Basta uma faísca de memória, um fato que passa de relance que te passe algum significado. Aí pronto. A roda gira e gira e gira e você não sabe por que entrou nela e muito menos como sair. A tontura te domina e a única coisa que você deseja é voltar pra sua casa, pra sua rotina medíocre, pra sua vida normalzinha, pras suas atitudes que se encontram Dentro Dos Parâmetros De Segurança.

Aí dá aquela vontade de sair, de reencontrar velhos amigos, de conhecer novos, de dançar ao som daquelas músicas mais significativas. Mas isso não pode, é contra aquela frase tão verdadeira que é dita com tanta freqüência: Tô sem tempo, tô cansada.

Que fazer, então? Alimentar a alma, já que os próprios olhos estão cansados de brilhar enquanto nada verdadeiramente vêem. O fato de ser-ninguém até que te dá certa liberdade pra esquecer o mundo e cuidar de si um pouco. O fato de ser-ninguém faz com que você tenha vontade de ser verdadeiramente Alguém, assim, com letra maiúscula, nem que seja só pra você mesma. Novos livros, o máximo de consumismo que eu me permito ter. E vem Clarice, e vem Caio, e vêm assuntos históricos, e vem Fernando Sabino, e vem Anthony Burgess, e vem Chico Buarque.

Aí dá aquela vontade de parar tudo o que se está fazendo e mergulhar nessas palavras tão densas, que te prendem a um mundo que não é o seu. Perder-se nas palavras alheias é uma ótima maneira de driblar um pouco o vazio que te engole.

Mas não posso, não devo. Se existe um objetivo, é ele que deve nortear o meu caminho e os meus pensamentos. O resto é resto. Ninguém é feliz com resto. Pensando exatamente nisso, a feminilidade exala nos tons e nas cores que te fazem ficar mais leve. E vem a mudança nos cabelos, os cortes, o prender diferente, a fivela no lugar estratégico, a nova arrumação e o novo resultado. E vêm as unhas, vermelhas, de um sangue que insiste em existir e em correr dilacerante. E vem o sorriso, mesmo aqueles meio tristes, de satisfação consigo mesma. A feminilidade, desde que sem exageros, transforma o que era resto em algo passível de admiração.

E, usando de sorrisos como esses, a vida vai passando. O tempo vai passando, as memórias vão-se apagando. Tal qual pétala de flor guardada dentro de livro, que, ao secar, tem o seu perfume arrancado de si e transferido para o papel.

Eis a pergunta: O que me importa?
Não sei mais.
De flor, agora sou apenas pétala. Estou presa no livro da minha própria Vida, deleitando-me enquanto posso com o aroma do meu próprio perfume, sem saber até quando ele vai existir em mim.