domingo, 28 de junho de 2009

Crítica construtiva. Ou não.

Que me perdoem os reciprocamente apaixonados e os casaizinhos bonitinhos e fofinhos-inho-inhos, mas hoje eu vou falar mal do amor. Se eu pudesse aconselhá-los, diria até para não lerem este texto, ou, se assim o quiserem, para que não me levem a mal e tentem encarar as palavras friamente e sem hipocrisia.

Não é uma crítica ferrenha à idéia do amor, mas à maneira com que ele se manifesta. Pra mim, ele foi distorcido. Deixando claro aqui que, o que quer que eu fale, não está verdadeiramente generalizado. Talvez, em toda a minha existência, eu já tenha visto um ou outro caso que foge completamente a todas as características que aqui serão relatadas. Eles se sustentam e sorriem ao saber que estão contradizendo o mundo inteiro.

O amor que vemos hoje em dia se traduz muitas vezes em posse, em exigência, em fingimento, em ciúmes, em egoísmo. Certa vez, numa roda de amigos, um professor de literatura (que, além de ser professor, criara vínculos de amizade sincera conosco) estava nos contando um fato curioso: “Eu estava na sala da minha casa e a minha esposa, na época, conversava com uma amiga na cozinha. Ela não deve ter percebido que eu estava ali e falava alto. Eu não estava prestando atenção na conversa, até que a ouvi dizer meu nome.
‘– Fulano pensa que eu gosto de Clarice Lispector. Eu a odeio! Só falei que gostava, mas nunca foi verdade.’ Tudo bem, eu não fiquei chateado ao ouvir isso, afinal de contas, eu nunca ficaria com raiva por uma pessoa não ter os mesmos gostos que os meus, mas foi ali que eu comecei a perceber que eu não conhecia a pessoa com quem eu dividia minha vida e que essa pessoa seria capaz de mentir pra mim até nas coisas mais simples, como gostar ou não de uma autora. Não preciso nem dizer que, hoje, não uso mais aliança nenhuma.”

O problema foi a Clarice? Não, não foi. Eu mesma confesso que tinha certo “medo” dela até bem pouco tempo atrás. Não tinha aprendido ainda a senti-la, mas, agora, devoro-a como quem busca alívio para um mal incurável. Não, não foi a Clarice. A intenção de agradar o outro dizendo algo que não é totalmente verdade pode até ser boa, mas garanto que a sensação de saber que a outra pessoa a ama mesmo sabendo dos seus defeitos é muito mais grandiosa.

Talvez as pessoas pensem que, para amar, é preciso possuir a outra pessoa. Não, não é preciso. Deus nos deu o livre arbítrio e tornou-se invisível para nós, ao menos no aspecto da visão, mas o fato de ele ficar nos observando sempre e dizer “venham a mim, pois eu estou aqui e os salvarei se assim o quiserem” é a maior prova de amor que pode existir na face da terra. Ele não nos manipula, nem nos governa, nem se ensoberbece do que fez por nós. Ele não espalha aos quatro ventos que Jesus se sacrificou pela humanidade para que digam “oh, como ele foi bonzinho”. Nós, os interessados, sabemos desse sacrifício. Só quem interessa precisa saber. Talvez por isso eu não goste dos tais carros de loucuras de amor. Você paga uma pessoa estranha pra dizer o que você mesma deveria dizer. Mas, não se contentando com isso, ainda deixa claro que tudo precisa ser exibido e gritado em alto e bom som, pra que os outros ouçam e pensem “nossa, como eles se amam!”. Na verdade, o inferno são os outros. Deixar-se atingir por peçonhas alheias também destrói qualquer tipo de estabilidade. Eu sei disso porque vi com meus próprios olhos e posso atribuir claramente a esse tipo de desgaste o fato de as duas pessoas mais importantes da minha vida não estarem juntas agora. Não posso sequer fazer um aniversário em que os dois estejam presentes. O inferno? São os outros. Não posso nem imaginar em significar algo assim para alguém ou alguéns, me dá asco, eu simplesmente não conseguiria ser assim ou sequer pensar em ter a palavra “peçonha alheia” atribuída à minha pessoa. Eu levo a sério a historinha de ‘não fazer para os outros o que você não gostaria que fizessem para você’.

E, exatamente por não conseguir tal proeza, eu preciso voltar à minha encruzilhada. Nela, sempre existiram mil caminhos tentadores, que conduziriam a uma realidade fácil, mas, provavelmente, fingida. Eu tenho tendência a fugir de superficialidade, então optei pelo caminho mais difícil. A própria denominação pressupõe impropérios. Só depois de muito tempo, percebi que já estava no meio dele e que não mais havia saída. Um muro muito maior que eu mesma, colorido e bonito me impede de prosseguir. Que fazer, então? Não sei ser peçonhenta e não tenho forças pra sequer pensar em destruir qualquer resquício de muro, por mais minúsculo que seja. Só me resta voltar pelo mesmo caminho que percorri e só então enxergar a quantidade de pedras que, nele, havia. Eram imensas, fragilizariam qualquer um. Como eu consegui passar por elas no caminho de ida? Honestamente, não faço idéia. Não há mais cor na minha visão, elas me foram tomadas e eu só consigo enxergar em preto-e-branco. Em compensação, eu não preciso mais passar por cima dessas pedras, basta desviar delas e tentar não pensar em como prosseguir normalmente. Na volta, a dor foi embora, mas levou consigo as cores. O que deixou? Vazio. Como tapar uma cratera imensa com uma pá minúscula em que não há terra? Como cobrir o vazio com mais vazio? Incógnitas que eu, pretensiosamente, me meto a descobrir. Juro que divulgo a fórmula assim que chegar a alguma conclusão. Talvez eu fique rica com a divulgação dessa tal fórmula e tenha a ilusória sensação de ser amada pelo que sou, quando, na verdade, seria amada pelo que tenho e pelo que proporciono com o dinheiro ganho. Solução? Não, não mesmo. Se é pra ser assim, prefiro mudar de idéia e guardar a fórmula só pra mim.

Pode ser uma comparação idiota, talvez ocasionada pelo excesso de estudo de História, mas eu costumo associar a idéia de amor à idéia de socialismo. Estranho? Não tanto. Por favor, não pensem que o meu intuito é fazer com que todos vivam numa poligamia sem limites em função da “divisão dos meios de produção”. Jamais! Eu nunca pensaria em algo assim, sou uma moça direita! O ponto a que eu quero chegar é a distorção das idéias naturais do socialismo, que o transformaram numa realidade autoritária ao invés de algo proporcionador de bem-estar comum. Em meio à Primavera de Praga, as pichações dos muros na Tchecoslováquia lamentavam: “Lênin, eles enlouqueceram!”. Do mesmo jeito que o socialismo foi utilizado para dominar, o amor ainda é utilizado para chantagear e fazer outra pessoa agir sob o domínio de meros caprichos do ego. A humanidade enlouqueceu e esqueceu da primeira lição que nos foi ensinada: o amor. Porque foi do amor que nós nascemos e, se há algo por que valha a pena morrer, é por amor. Não por achar que a religião X é melhor que a religião Y, por uma lama preta que é cemitério de vidas existentes há bilhares de anos ou pela disputa de um pedaço de chão.

O que eu acho é que nada substitui uma surpresa num dia comum, não numa data comemorativa. Nada substitui três palavrinhas ditas sempre que der vontade, sem receio nenhum de estar sendo pegajoso ou sentimental demais. Sinceridade, honestidade e, acima de tudo, reciprocidade. Eis a utopia. Acredito um pouco nela, tanto é que uma parte de mim ainda gosta de presentear as pessoas que eu amo sem data marcada e sem motivo aparente. “Lembrei de você, só isso”. Nada de gastar dinheiro demais. Juro que não é avareza. Prefiro gastar meu tempo, minha pouca criatividade e minhas próprias mãos para construir algo de bom e, assim, ver um sorriso no rosto de quem eu quero bem por um motivo que veio de mim e é significativo, não de alguma loja que trocou um presente qualquer por alguns pedaços de papel com números.

Por favor, não me contradigam nem tentem me consolar dizendo algo do tipo “calma, você vai encontrar qualquer coisa de bom quando menos esperar”. O problema é exatamente esse. Minha parte sentimental é socialista utópica e a essência do socialismo morreu em todos os sentidos. Hoje, vivemos num mundo em que uma pessoa é capaz de apontar uma arma pra uma criança de uns 7 anos pra tomar uma supérflua câmera digital. E a criança, vai ficar traumatizada pelo resto da vida por causa de um papel sujo estampado por tais números? Vai sim, vai ficar. Como isso é irrefutável, eu tenho plena certeza de que não vou conseguir, já aprendi a lidar com esse fato. É utópico demais. Não, não vou conseguir. Como na Primavera de Praga, eu repito: “Lênin, eles enlouqueceram”. Parafraseando, repito: Deus, eles enlouqueceram. Por favor, faça com que tudo isso tome algum rumo menos frio. Que haja mais amor, aquele que é verdadeiro e sem exigências, no mundo. Mesmo que não seja essencialmente para mim ou por mim. Mas que, pelo menos, seja. Aconteça. Que seja doce.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Anoitecer (Sobre a abrangência de uma imagem).


Anoitecer. Para ela, a hora mais poética do dia. Adorava o fato de sair do trabalho na mesma hora em que o sol também terminava o seu expediente naquela parte do planeta. Ao despedir-se de mais uma série de afazeres planejados e repetitivos, porém, cumpridos com destreza, deixava-se levar pela música de que ela tanto gostava e que agora tocava no som do seu carro, num volume moderado, para que não fosse preciso esforço algum para sentir a respiração alterando-se conforme o ritmo e para que a mágica melódica não se quebrasse.

Não, ela não gostava do seu trabalho. Por sorte, só precisava ficar ali por algumas horas. Tinha orgulho de ter passado em um concurso público com seus 20 e poucos anos, embora não tivesse um cargo astronômico e nem tivesse sofrido horrores para passar naquela prova. Era apenas suficiente. Sentia-se bem em um emprego que não a atraía, por mais estranho que isso possa parecer. Em experiências passadas, concluíra que quando se passa algum tempo num lugar que não agrada, o resto do dia torna-se muito mais atraente. Quando o dia inteiro é ao menos suportável e sem alegrias inesperadas, a vida acaba tornando-se maçante. Há muito tempo, vivera algo assim e nunca conseguia esquecer essa época, por mais que tentasse. Ao menos esta lição estava gravada: não se pode esquecer tudo. Agora ela tinha algo por que esperar, mesmo que fosse apenas a sensação de estar bem em um determinado local. Passara cerca de um ano trabalhando como se não ganhasse salário algum e guardara tudo o que recebera para comprar seu primeiro carro. Agora que tinha conseguido, podia dar-se ao luxo de entregar-se aos seus prazeres literários e musicais. Todas as semanas, fazia questão de ir a um sebo em especial, localizado em um lugar significativo. Não gostava muito daquela rua, ela trazia-lhe lembranças de um passado que lembrava magma. Ao passar por ali, sentia a ameaça de erupção, embora tentasse se controlar até lograr êxito. Vez em quando, gostava de comprar alguns livros novos, só para sentir aquele cheiro tão especial de páginas praticamente intocadas. Era o máximo de alteração que se permitia fazer em sua rotina.

Nesse fim de tarde, ela queria esse cheiro. De livro novo, de ar-condicionado, de piso polido. Estava bem vestida, gostava de cuidar de si e até que tinha boa aparência. Disfarçava-se muito bem no meio da sociedade hipócrita na qual se incluía. Foi ao shopping mais próximo, adentrou a livraria enorme que era fonte dos seus pequenos luxos literários, escolheu um exemplar que lhe agradasse e foi embora. Simples assim, sem mais delongas. Ao voltar para o carro e pôr o livro no banco do passageiro, que raramente era ocupado por outra coisa que não fossem livros, cd’s ou instrumentos musicais, relutou em sair dali. Talvez por não haver música, como um radar que passa a captar o sinal com mais nitidez quando não há interferência, ela conseguia prestar mais atenção no que acontecia ao seu redor e tinha a impressão de ter visto uma silhueta conhecida ali por perto. Ao se dar conta disso, ligou o carro o mais rápido que pôde e saiu dali praticamente voando. Era a erupção, de que ela tanto fugia e que, naquele momento, fazia questão de ir ao encontro dela.

Aos poucos, foi diminuindo a velocidade. Ela devia ter visto algo errado. Mesmo que fosse quem ela pensava, a consciência de que não é tão fácil assim dividir a mesma cidade, mesmo que esta seja extremamente grande e movimentada, começava a chegar à sua mente. O magma não chegou a explodir e se transformar naquela onda de luz e calor tão fortes que ela jamais poderia imaginar sua intensidade, apesar de estar dentro dela mesma. Ainda bem. Pôs uma canção mais calma e dirigiu-se à sua casa.

Certa vez, alguém lhe dissera que nós não somos o que mostramos. Temos uma caracterização de nós mesmos, uma capa que utilizamos perante aos outros, para fingirmos que somos normais e para que acreditemos que os outros também são. Só somos o que realmente somos quando entramos no nosso quarto, sem mais ninguém, e giramos a chave. De madrugada, durante as insônias, os turnos de estudo, as leituras e as tentativas de usar palavras para descrever nosso próprio mundo. Talvez por isso ela gostasse tanto da noite. Quando a claridade do sol dava lugar à tímida luz da lua, as pessoas descobriam-se, aproveitando furtivamente a leve escuridão.

Como num ritual, tirou todos os objetos da bolsa, preparou o material que levaria para a faculdade na manhã seguinte - a parte interessante do dia, quando ela se sentia mais próxima da felicidade ao lidar com uma profissão que ela realmente escolhera e que realmente pretendia seguir, tão logo acabasse o curso -, guardou o livro num lugar reservado aos exemplares não-lidos da sua estante, tomou um banho relativamente demorado e parou em frente ao espelho. Ali, conseguia dividir duas imagens. O futuro que estava se desenhando e o futuro com que ela se permitia sonhar.

O destino palpável era feito de continuidade. Uma mulher razoavelmente bonita e com razoável estabilidade financeira. Politicamente consciente e dona de uma inteligência admirável que, com o passar dos anos, acabaria se perdendo. O gosto pela música ia, aos poucos, sendo deixado de lado, mais por medo de despertar algo perigoso dentro de si que por falta de talento. O que tinha era metade. Traços de si guiados pela mão invisível do tempo e da solidão. Razoável e nunca completo. O perigo maior atendia pelo nome de sentimento.

O futuro idealizado tinha como base uma simples foto. Quando estava nos seus períodos racionais e excessivamente ligados à rotina, ela escondia aquela imagem numa gaveta qualquer, sob o argumento de não querer ser aprisionada por um fantasma que não mais existia. Dias ou meses depois, ela percebia que estava esquecendo a composição daquele cenário, daqueles rostos, daquelas cores. Era como se ela estivesse matando algo de bom que existia em seu próprio interior. Procurava com afinco, quase desesperadamente. Escondia aquilo tão bem que não sabia mais como encontrar. Depois de algum tempo, após desarrumar todo o quarto, encontrava a foto. Prendia o papel monossilábico ao espelho, como se, assim, pudesse prendê-lo à sua realidade. Quando olhava em volta, percebia a desordem do quarto. Seria uma materialização da sua mente? Ela tinha certeza que sim.

Naqueles breves instantes que pareciam durar uma eternidade, ela deixou que o mundo real escapasse dali. Estava num daqueles dias de desapego ao cotidiano, o novo livro na sua estante servia como prova irrefutável disso. A foto estava presa ao espelho e a sua mente estava, aos poucos, se reorganizando. Como se a dona do quarto arrumasse tudo com preguiça, objetivando deixar a bagunça permanecer pelo maior tempo possível. Ela estava arrumando lentamente, mas ao menos estava arrumando. Queria justificar para si mesma que estava fazendo algo para recuperar sua estrutura rotineira, ao mesmo tempo em que desarrumava alguma gaveta de maneira furtiva, tendo que, inevitavelmente, arrumá-la de novo.

Fazia tanto tempo, tanto tempo... Desde que aquela imagem e aquela palavra foram deixadas para ela com o intuito de justificar a ausência que ela não acreditava que fosse durar muito, passara a acreditar plenamente que um simples monossílabo pode definir tudo. Ao contrário do que pensara na época, a ausência durou. E durou muito. No começo, ela deixou-se levar por aquelas letras e levantava hipóteses, revendo suas atitudes e pensando no que poderia ter modificado aquela situação. Mas os meses foram passando e trazendo a realidade consigo. Se os sentimentos não podem modificar a realidade, o tempo pode modificar os sentimentos. Nos dias que se arrastavam, ela conseguia controlar seu coração quase que completamente. Exceto nos períodos de quarto bagunçado, quando ela gostava de lembrar daqueles olhos, daquele sorriso de canto de boca e daquelas músicas, além de se permitir um pouco de tristeza pela impossibilidade de despedir-se. Era o futuro sonhado que insistia em se fazer presente, como lava de vulcão que, ao iluminar, também queima. Sentiu a presença do magma naquele fim de tarde, e tal fato a assustou. Preferia pensar que aquilo era um simples desvario causado pelo cansaço e pela desordem recente que se fizera no seu quarto e no seu mundo ao procurar aquela foto novamente.

Campainha tocando. Estranho. Pouquíssimas pessoas a visitavam. Suas amigas estavam, provavelmente, saindo com seus namorados perfeitos e aproveitando a noite que derramava um luar tão doce. Saiu da frente daquele espelho, parou em frente à porta. Abriu. Pensou, por um instante, que estava olhando aquele papel e aquela palavra novamente. Eram os mesmos olhos da fotografia, acrescidos por um toque a mais de beleza e de brilho dado pelo tempo. Não, ela não fizera desvarios naquele fim de tarde. Ele voltara à cidade e estava realmente ali, na sua frente, ressuscitando do quase esquecimento como fênix.

Muitas explicações faziam-se necessárias e não havia espaço para monossílabos ali. Os laços invisíveis, que antes foram cortados pela distância e pela ilusão de que conseguiriam ser plenos ao separar-se, acabaram reatando-se. Como há alguma magia obscura em tais noites, ouve-se a voz de Chico, cantando baixinho "Te dei meus olhos pra tomares conta / agora conta, como hei de partir?". Provavelmente, o som vinha de algum vizinho solitário contagiado pela lua e perdido entre acordes apaixonados e uma sala vazia. A lua distribuía mais luz, como se soubesse da complexidade daquele momento. Da janela da sala, era possível sentir um vento leve e cálido, como lava de vulcão que não mais agüenta ficar presa nas entranhas de uma montanha fria e sólida e resolve se manifestar, trazendo toda a luz e todo o calor que guardou por uma cronologia indefinível.


PS.: Pra ficar menos confuso, basta reler o "Agridoce (Sobre a abrangência de duas letras)". Acho que está a uns dois posts atrás. Esse aqui provavelmente sofrerá algumas modificações para se tornar mais coerente, mas serviu pra mostrar o outro lado da história e deixar as coisas inconclusas. :)

domingo, 14 de junho de 2009

De ontem em diante serei o que sou no instante agora.

A partir de hoje, prometo trocar os lugares. Parar de pensar nas outras pessoas e no que pensariam, no que falariam, em como agiriam ou julgariam as minhas atitudes. Parar de esperar por atos de bondade que não vêm e fazer o possível para realizá-los por mim mesma e para mim mesma. Prometo reorganizar absolutamente todas as minhas idéias e todas as minhas pendências. Trocarei os textos digitados pelos escritos, uma tela de computador pela musicalidade das seis cordas do meu violão, uma manhã sonolenta e inútil pelo meu vício incurável por livros. Prometo não criar expectativa nenhuma pelo meu aniversário, a não ser aquela já anunciada pela vinda do meu novo instrumento. Irei batizá-lo com o nome de algum personagem importante. Prometo pensar nisso tão logo o meu novo companheiro musical chegar. Prometo ouvir mais samba e usar a introspecção de Clarice e o realismo não-hipócrita de Machado para me distrair. Prometo voltar a tocar todas as peças de música clássica que já toquei nos tempos em que tinha aulas de violão e tinha o prazer de ouvir algo do tipo “você é muito musical” na voz daquele que me mostrou o poder que os sons e os silêncios têm. Prometo fechar os olhos para todo e qualquer tipo de hipocrisia e, mesmo sabendo suas exatas pretensões e sua verdadeira face, fazer com que meu lado amável se sobressaia. Prometo não mais me entristecer se me falarem que meus textos são melancólicos e psicológicos demais. Prometo deixar de me permitir dias nervosos acompanhados por canções tristonhas e prometo continuar não gostando de diminutivos. Insônias? Nem pensar. Se elas vierem, que sejam acompanhadas por algum samba ou por fatos históricos. Prometo não deixar meu lado infantil morrer e continuar percebendo a magia existente nos detalhes. Mesmo assim, prometo continuar não me deixando levar pelos ares de criança e continuar tendo aversão a qualquer denotação negativa de infantilidade. Prometo conseguir ser ainda mais forte do que venho sendo e aprender a não me importar. Prometo ser ainda mais atenta com quem realmente faz algo por mim. Prometo não deixá-los na mão e, se tiver de arranjar forças em um lugar qualquer para dar suporte a eles e a elas, continuarei fazendo de tudo. Prometo trancar-me numa bolha e olhar só para dentro de mim por algum tempo para, depois disso, virar meu foco unicamente para o exterior. Prometo pensar com cuidado na possibilidade de ir morar fora do estado pra fazer outra faculdade. Se for, prometo deixar atados os laços que me sustentam. E, se não for, prometo fazer o possível para deixar claro para os que aqui estão que eu existo. E estou aqui. Mesmo não sendo a pessoa mais importante e prioritária do planeta, eu sempre estive. Exatamente aqui. Pro que der, vier, não der e não vier.

Acho que, mais do que fazer, eu gosto de cumprir promessas.

sábado, 13 de junho de 2009

78 cadeiras. Ao passar mais de uma hora numa sala "vazia" (sim, as cadeiras são uma maravilhosa companhia), mesmo que as contas não sejam atraentes, a tentação de saber quantos objetos a observavam era acentuadíssima. Bom, eram 78 cadeiras vazias. E daí? Queria escrever isso, mas faltou-lhe impulso para pegar umas folhas quaisquer e pôr em prática o que se compunha em sua mente. Respirou fundo e moveu-se. Barulho de mochila, de pacotinhos de vita-C, e, finalmente, de folhas. Rasgou uma. Poderia tê-la tirado sem rasgar, mas, ao menos naquele momento, preferia a rapidez avassaladora à calma torturante. São só folhas, elas não interessam. Rabiscou um ou dois parágrafos, não gostou. Quis amassar, como sempre fazia. Talvez a situação merecesse um pouco mais, eram folhas rabiscadas que faziam-se inúteis. Rasgá-las parecia mais apropriado. Mas, onde jogá-las depois? Não havia lixeira na sala! (Precisava lembrar de reclamar disso junto aos funcionários, posteriormente.)

Mas ah... Quer saber? Ela não queria levantar-se dali. Eram muitas escadas e só ela sabe o quanto foi extremamente cansativo subi-las. Melhor guardar, mesmo. Lembrou-se da existência de uns envelopes na sua pasta. É, envelopes. Infelizmente, era plural. Acabou guardando os rabiscos dentro do mais pálido dos envelopes que ali se encontravam (por sorte, um ou outro ainda estava vazio) e pensou num possível destino para o conteúdo dos outros elementos que compunham aquele plural de papéis rabiscados, rebuscados e, provavelmente, ridículos. Talvez ela amassasse, como geralmente fazia com suas composições que não soavam bem. Talvez ela deixasse lá, naquele pálido envelope, e guardasse no fundo de uma gaveta qualquer, para ter o esquecimento como resultado. Eram só uns dois parágragos rascunhados sobre um monte de cadeiras vazias. Eram só papéis. Eles não são tão importantes assim. Talvez.

sábado, 30 de maio de 2009

Agridoce (Sobre a abrangência de duas letras).


Cansado, cansado. Quase não havia dormido. De repente, como se emergisse de algum transe, abre seus olhos num sobressalto. Sim, a plataforma continua ali. Não foi um sonho. Moveu sua cabeça um pouco, procurando o melhor ângulo para que seus olhos atingissem diretamente as malas. Eram poucas, simplórias. Levavam apenas tecido, música, páginas, cenas... e um porta-retrato vazio. Ele repousava suas mãos na superfície daquele banco, procurando sentir a umidade advinda do recente nascimento da manhã, que ainda guarda as lágrimas deixadas pela chuva ao anunciar a despedida da noite. Ali, esperando aquele trem, ele também se despedia. Não da maneira tradicional, já que clichês não o atraem. Foi sutil ao distanciar-se de algumas vidas sem deixar claro que pretendia esvair-se delas. Dos poucos objetos que levava consigo, fizera questão de deixar apenas as lembranças. Uma exceção? O porta-retrato. Ao contrário dos outros componentes daquelas malas, ele deixara o objeto principal para trás e o levava apenas na memória.

O caminho até aquela situação iminente tornava-se mais difícil a cada passo dado. Na verdade, queria muito ser lembrado, queria muito não precisar ir. Tentava encarar aquele começo de manhã como se fosse normal, uma mera saída em que sua rotina mudaria ligeiramente. Chegou ao ponto de desejar ouvir uma daquelas canções leves, que se escuta ao nascer de um domingo praiano. Não funcionou. O silêncio era necessário, os pensamentos eram necessários. Torcia com todas as suas forças para não ser esquecido, apesar de ter plena consciência de que o esquecimento provavelmente seria a saída mais palpável.

Sentia muitas saudades daquela cidade, mesmo sem tê-la deixado ainda. Será que ainda pisaria ali de novo? Será que ainda ouviria aquelas vozes, andaria por aquelas ruas ou veria aqueles rostos? Por via das dúvidas, preferiu despedir-se levemente a ter que encarar sofríveis lágrimas reveladoras. Em seu julgamento pesado, pensado e repensado, fizera o certo. Tinha medo de que o esquecessem, mas tinha plena certeza de que nunca os esqueceria. O sol, a ponte, o chão daquela casa, os gestos. Estava tudo tão nítido em sua mente que ele quase conseguia tocar todas as imagens e detalhes. Ao pensar no que deixaria para trás, seus dedos crisparam-se, como se quisessem ficar eternamente agarrados àquele banco gélido de estação de trem.

A espera estava longa demais e seus esforços para não pensar nela começavam a ficar vãos. O vazio de sua mente dava lugar a uma imagem totalmente branca, com uma singular figura central, que tinha os olhos docemente fixos em sua direção, exalava feminilidade e parecia saber o exato teor de seus pensamentos desde o começo. Ela sempre foi exacerbadamente sábia, e o vestido vermelho que trajava era o mesmo daquela tarde em que ele se despedira e ela não parecera entender. Por que essa sensação ruim insistia em continuar nele? Afinal, o propósito de tudo era deixá-la livre para viver e continuar distribuindo a luz que insistia em emanar daqueles olhos que dele fugiam. Sim, talvez ela entendesse. Se não agora, depois. Quando a ausência dele se materializasse.

Uma voz conhecida o tirou das divagações e só então ele percebeu que estivera com os olhos fechados por algum tempo. O vão claro e vermelho que dominara o seu pensar tinha dado origem a outro sobressalto. A única pessoa no seu campo de visão era uma velha senhora sentada com um rádio no colo. Mal teve tempo de pensar no porquê daquilo ter causado a interrupção do seu fluxo de memórias, logo percebeu que o trem vinha apressado e devastador para tirá-lo daquele lugar. Ele parou, pegou as malas, procurou um vagão razoável e sentou-se. De onde estava, era possível ver a velhinha um pouco mais de perto e até ouvir nitidamente a música que o rádio dela tirava de si, com o esforço de pilhas baratas. Eram versos conhecidos, que ele, muitas vezes, costumava cantar junto ao seu negro violão. Saio sem alarde / sei que já vou tarde / não tenho pressa / nada a me esperar...

Ouvindo aquela canção, o trem partiu, ganhando velocidade à medida que o volume do rádio diminuía. Ele estava sendo arrancado dali aos poucos e sentia-se aliviado ao se dar conta de que certos impropérios não mais faziam parte da sua vida. Preferia não pensar em todas as situações que, em algumas épocas, fizeram-no sentir a pessoa mais preciosa do mundo. Aqueles pensamentos acabariam deixando-o mais machucado do que já estava. Melhor pensar que tomara a atitude correta, que a sua partida deixaria o caminho livre para uma felicidade merecida e que talvez, depois de algum tempo, conseguiria lembrar de tudo apenas com uma saudade contida.

Enquanto via aquelas ruas familiares pelo que temia ser a última vez, pensava no porta-retrato vazio dentro de sua mala. Imaginava aqueles olhos tão incríveis visualizando a cena impressa na foto que, um dia, estivera ocupando aquele espaço retangular de madeira. Ela, agora, era dona do seu objeto mais importante. No verso daquele papel deixado para trás, uma caligrafia que ele esperava que ela nunca esquecesse. Queria ter dito tudo o que se encontrava no seu coração e nos seus pensamentos, mas só conseguira escrever uma palavra: Se.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Dá-me o direito de dizer coisas sem sentido, de não ter que ser perfeito. (...) Virar os dados do destino, de me contradizer, de não ter meta.


Uma noite como outra qualquer. Aparentemente. Depois de uma manhã cansativa e de uma tarde costumeiramente cheia de fórmulas e termos descartáveis, eu ia de encontro ao meu descanso, como sempre. Foi então que, antes de sair, vi a lista com a classificação referente ao último simulado realizado no local onde eu estudo. Comecei a procurar meu nome pelo final da lista, tendo em vista que a classificação era geral e eu não me saio muito bem nas partes exatas das provas de primeira fase. Passados alguns instantes, um amigo diz que viu meu nome. Lá em cima. 7° lugar geral. Fiquei surpresa e feliz, obviamente, mas aquilo não me trouxe tanto contentamento quanto eu, um dia, imaginei que traria. Saí dali com os pensamentos em torno da palavra “injustiça”. Honestamente, eu creio que muita gente merecia mais do que eu aquele 7° lugar. Não estou me desmerecendo, pelo contrário. Se o meu nome estava lá, houve um motivo. Mas não creio que esse motivo seja suficiente, uma vez que eu passo a maior parte do meu tempo pensando nos últimos acontecimentos, reclamando da física, liberando meus sentimentos através da música ou lembrando as pessoas que me são importantes. E o curioso é que, mesmo eu não sendo um exemplo de vigor estudantil, meu nome estava lá. Como se fosse um sinal de algo que eu não conseguia interpretar até aquele momento.

Comecei a pensar em como eu tenho sorte e em como os elementos que hoje regem minha vida entraram no meu caminho. E se eu tivesse escolhido sentar em outra cadeira naquele primeiro dia de aula da 7ª série? Lidiane, com sua bolsa de couro a tiracolo e sua caligrafia imutável, nunca teria me perguntado “que horas são?”. Mas eu escolhi a cadeira certa e era ela quem estava comigo no último sábado, à meia-noite, sentada num sofá olhando a escuridão da sala, dizendo que eu mereço que tudo dê certo, que queria muito poder fazer algo pra me ajudar e que torce por mim. Era ela quem me abraçava enquanto eu chorava por temer o resultado da decisão que eu tomara ultimamente. Era ela quem me conhecia, talvez até mais do que a própria noite. Com ela e com mais algumas amigas, eu divido um amor de irmã que é raríssimo, nesse mundo hipócrita em que a gente vive. Na minha caminhada até a parada de ônibus, todos esses fatos circundavam minha mente, como se fossem imagens holográficas. A chuva caía leve e meus pés escorregavam na própria sandália. Precisei andar rápido, uma vez que o ônibus já havia chegado. Tive sorte por não escorregar e tive sorte pelo fato de o motorista ter esperado. Ao entrar, tive sorte mais uma vez, já que a pessoa que estava sentada na cadeira ao lado levantou-se. Pude sentar.


Janela. Chuva tornando-se intensa. Cheiro de terra molhada. Tudo contribuía para que eu pensasse. Liguei o mp3 e entreguei-me a uma das únicas coisas que permitem que eu me revele: a música. Pensava que, daqui a alguns dias, estarei indo ao encontro daquele ambiente cuja trilha sonora me marca profundamente. Talvez eu não tenha as minhas abraçadoras oficiais por perto, mas... Sim, irei feliz. Mesmo sabendo que vou acabar tendo que abraçar a mim mesma enquanto tento esconder o choro para que não me achem louca. É paradoxal pensar que eu preciso das músicas que revelam o que eu tanto luto para esconder. Mas quem disse que a vida é simples? Eu sei que não é. Tenho sorte por saber disso.

Pensei bastante em Deus, ao longo do dia. Talvez por estar lendo um livro que traz consigo uma concepção bem distante das instituições religiosas, o que me alivia. Posso até estar errada, mas sempre tive certeza de que Deus é a Natureza. Por isso, Ele se faz sempre presente. Ali, naquela cadeira de ônibus, eu O sentia perto de mim. Não fechei a janela em momento algum, precisava daquele contato com as gotículas e com aquele cheiro tão agradável. Era como se Ele estivesse sempre perto de mim e fosse responsável por colocar tantas pessoas especiais na minha vida, que sempre surgem através de coincidências e acontecimentos banais.

Tenho sorte, muita sorte, por ter essas pessoas ao meu lado. Tenho sorte também, por ter aprendido a ser quase auto-suficiente em alguns aspectos. Estou super bem com o fato de saber que, mais uma vez, o presente que chegará a mim no dia 12 de junho foi comprado por mim mesma. E daí? Deixando meu aspecto ligeiramente humilde de lado só pra descontrair... Sim, eu casaria comigo mesma, sem pestanejar, se pudesse! Hahaha! (Só pra constar, o presente deste ano vai ser bem bonitinho. ^^)

Lembrei da minha mãe. Não dela, especificamente. Do seu cheiro ou dos seus olhos verdes e cílios de boneca. Não, lembrei de uma cena que nós vivemos. As lembranças são poucas, porém, nítidas.
Carro. Eu, no banco de trás, olhando pela janela (como sempre). Minha mente estava focada na minha tia, que falecera na noite anterior e que era minha vizinha. Um AVC raríssimo e fatal. Mas não era isso o que preenchia minha mente completamente, e sim o fato de eu tê-la visto, de longe, caída naquele chão alaranjado, pouco depois de terem descoberto que ela partira. Foi uma fração de segundos, mas os seus cabelos loiros e sua blusa verde não saíam da minha cabeça naquela ocasião. Nunca tinha visto um ser humano sem vida antes, e esse acontecimento só fez dois anos. Não é um passado tão distante assim. O fato é que estávamos nesse carro, indo para um lugar que eu não lembro, com outra pessoa que eu não lembro. Quem interessa nessa cena somos eu e minha mãe. Mesmo com toda aquela dor, ela sabia que não era só por aquilo que eu chorava. Como se lesse minha mente, ela perguntou: “Tá com saudade da mãe?”. A única coisa que minha voz adolescente conseguiu pronunciar em meio às lágrimas foi “Tô”. Foi, provavelmente, o “tô” mais intenso de toda a minha vida. Ela respondeu: “Tenho saudades de você todos os dias”. Silêncio. Depois dali, não lembro de mais nada daqueles dias que se seguiram. A não ser de ter assistido a O Fabuloso Destino de Amélie Poulain e ter conseguido sorrir por dentro pela primeira vez depois de tanto tempo. Não há como não chorar ao lembrar disso. Ali mesmo, naquela cadeira desconfortável de um transporte coletivo, uma lágrima teimosa quis descer, mas hesitou. Parecia uma daquelas gotas que se encontravam presas à janela. Parou ali, no canto do olho, como se não quisesse me largar e preferisse me poupar do constrangimento de rasgar minha face em pleno ônibus.

Hoje, eu posso dizer que minha mãe já me apresentou a uma pessoa usando estas palavras: “Aqui está a minha filha. Ela tem um caráter de dar inveja a qualquer ser humano”. Eu tenho sorte por poder ouvir essas frases. Tenho sorte por ter uma mãe que faria absolutamente tudo por mim e faz questão de deixar isso bem claro pra quem quer que seja. Tenho sorte por ter um pai que confia plenamente em mim, a ponto de me pedir conselhos sobre negócios ou vir conversar comigo porque se sentiu mal na noite anterior e teve vontade de chorar. Tenho sorte por poder ajudá-lo e por fazer com que as minhas palavras de “Pai, não se preocupe e viva um dia de cada vez. Eu tô aqui e o senhor sabe disso” surtam efeito e façam com que a tristeza vá embora. Tenho sorte por finalmente perceber que eu devo, sim, ir atrás dos meus sonhos. Mesmo que eles pareçam inatingíveis ou que eu precise pagar um preço muito alto por me atrever a buscar minha felicidade. Deus, em forma de chuva, fez-me perceber que Ele está presente em tudo e que qualquer sentimento bom que eu tenha deve ser demonstrado, não importando as conseqüências que isso possa acarretar. Sei que Ele não julga mal sentimento nenhum que seja sincero e bonito.

Estava chegando perto de casa. Desliguei o mp3 e a máquina de pensamentos existenciais. Peguei o guarda-chuva dentro da bolsa e desci. Quando pensei em abri-lo para me proteger das gotas, desisti. A chuva, com seu cheiro magnífico e sua presença quase divina, foi quem deu margem a tantos pensamentos. Ela estava ali comigo e eu precisava deixar que me tocasse. Se era Deus, eu não tenho certeza. Mas eu senti que era. Assim como existem lágrimas de tristeza e de felicidade, a chuva trazia consigo uma mensagem que poderia ser decifrada ou não. Na esquina da minha casa, estava acontecendo um culto numa igreja evangélica. Eles estavam lá, cercados por paredes que os protegiam da chuva, clamando por Deus. Mal sabiam eles que as respostas que tanto procuravam poderiam estar ao alcance das mãos. Bastava livrar-se da cegueira e enxergar. Mas, nem por isso, creio que eles vão deixar de ter suas almas lavadas. Esse Ser Superior que nos rege está dentro de cada um de nós, tornando-nos fortes e propiciando-nos momentos tão simples e incríveis.

Ali, naquela rua tão familiar, eu me sentia perto desse Ser, seja ele qual for. Uma pequena peça da engrenagem do mundo, aparentemente tão insignificante. Cansada, sem me importar com a aparência ou com o fato de que minha apostila estava mais úmida do que deveria. Mas ah, eu não queria me ver assim. Por algum motivo, naquele momento, eu não enxergava em mim apenas uma moça baixinha e bochechuda que precisa perder uns quilinhos. Eu estava feliz, bem, resolvida. E nada nem ninguém poderia me arrancar desse estado de espírito.



terça-feira, 19 de maio de 2009


Nosso poder de confundir as coisas chega a ser assustador. Escutamos errado, interpretamos errado, escrevemos errado. Provavelmente, alguma parte do nosso cérebro é responsável por tais acontecimentos, como se quisesse nos pregar uma peça ou mesmo rir da nossa cara. Tá bom, tá bom, eu sei que cérebro não pode rir. Mas ele é o mestre, não é? Pode muito bem dar a ordem para que possamos rir das nossas próprias confusões. Ou das confusões dos outros (que, sem hipocrisia, são as melhores).

Existem várias maneiras de se equivocar involuntariamente em alguma tarefa. Ao escrever fórmulas numa aula de física, por exemplo, podemos trocar um R por um F. Motivo? Pensamentos voadores, claro! Vai que o nome da “tal pessoa” começa com F e os humanos, exacerbadamente apaixonados que são, acabam vendo as iniciais do que parece ser o nome mais lindo do mundo em todos os lugares? É mais normal do que bater o pé no ritmo de uma música bacana que ecoe nos ouvidos.

As ligações erradas são um trunfo à parte. Por surdez, distração, pressa ou qualquer outro motivo, nós anotamos o número errado, trocando um 6 por um 3, por exemplo. (Por sinal, ao dar seu telefone para alguém, refira-se ao 6 como “meia”. Evita ao menos um desses deslizes.) Uma simples inconveniência por parte do nosso querido e zombeteiro cérebro pode acarretar desastrosas conseqüências. Qualquer um ficaria aborrecido ao receber ligações como esta:

- Alô, meu amoooor! Ah, você não sabe o quanto eu tenho saudades de você!
- Alô quem?
- Sou eu, meu bem! Aaah, te conheço. Só porque a ligação tá meio ruim, cê fica aí se fazendo de difícil. Até parece que eu vou acreditar que você não lembra de mim! Cê tava tão linda na última vez em que nos vimos, com aquele biquíni azul-piscina!
- Hã? Biquíni? Meu filho, eu sou uma velha de 78 anos! Não uso biquíni.
- Hein? Desculpa aí, senhora! Ligação errada!

Resultado? Trauma. Tadinha da velhinha. Algumas delas poderiam até achar ótimo o fato de receberem uma ligação de um rapaz dizendo que elas ficam ótimas de biquíni, mesmo que seja um engano. Mas é melhor acreditar na pureza da nobre senhora e ficar com a hipótese de que ela tenha ficado, no mínimo, envergonhada. Sem contar o rapaz que, ansioso por despejar seus galanteios, acabou indo com muita sede ao pote e dando uma cantada numa senhora que poderia ser sua avó.

O pior é que não há como se prevenir de tais situações. Conheço casos de pessoas que receberam ligações de esposas furiosas e, usando um senso de humor quase cruel, fingiram ser amantes do marido em questão. Quase acaba em morte. Eu mesma já estive envolvida indiretamente numa ligação equivocada. Um amigo que, por sinal, foi quem me pediu para escrever este texto, anotou o número do meu telefone erroneamente. Ao ligar para mim, acostumado a despejar suas adoráveis pilhérias sobre o meu aspecto indígena, perguntou para o interlocutor: “É da tribo da Thamires?”. Não preciso nem descrever a situação embaraçosa que ali se formara. Basta dizer que, até hoje, várias pessoas costumam ligar para minha casa perguntando se aqui há garrafões de água para vender. Para os que atendem a essas ligações, recomendo a paciência e o senso de humor, acima de tudo. Deixo aqui o apelo para os que me ligarem equivocadamente. Não levem a mal se eu usar meu humor tipicamente cearense para rir dos seus enganos. É que não tem como não gracejar com as pequenas falhas cometidas pelos nossos mortais neurônios.




PS: Pensou que eu fosse esquecer, né? Não mesmo. Promessa é dívida, eis o texto. :]

domingo, 17 de maio de 2009

Luiza acabara de acordar. Naquele instante, seus olhos castanhos geneticamente dominantes quiseram abrir-se e lançar alguma luz naquele lugar. Da janela, migalhas de sol beijavam o chão do quarto. Era um momento transitório entre o subconsciente e a realidade. Pegou um dos vários livros que dormiam junto com ela na cama, ocupando o pequeno espaço acima de sua cabeça que fora destinado apenas para as páginas que a aliviavam do peso do mundo. Não conseguia visualizar as palavras, ainda estava sonolenta e começava a sentir uma ponta de dor de cabeça que, se não fosse curada ali, se estenderia pelo resto do dia. Não, ela queria um dia bom, ao menos pra variar. Fechou o livro e pôs-se a pensar, a processar. Sempre estava pronta para a profundidade, fosse ela qual fosse.

Fixou a mente em sua amiga, Rachel. Como ela poderia amar alguém que era só ausência, congelado na intocável distância? Como ela pôde cair nessa teia aparentemente invencível e sentir-se feliz com a materialização de um espectro, que só se mostrava nos sonhos? Luiza sabia. Sim, ela sabia como isso poderia acontecer. Ela sabia, principalmente, como sentir tais coisas. Na verdade, achava que era um poço de sentimentos alheios. Talvez até pudesse sentir o que estava ao seu redor, como se absorvesse tudo por algum processo osmótico. O fato é que sua visão sobre tal situação era límpida como um lago pertencente a algum lugar paradisíaco. Era tudo transparente e tentador, mas, ao aproximar-se, seria possível ver o barro no fundo. Ela sabia de tudo isso porque sempre foi especialista em sentir-se assim.

Fantasmas, sobretudo os inventados, a atraíam e povoavam seus sonhos quase todas as noites. Ironicamente, os sonhos eram sempre esquecidos nas primeiras horas da manhã. Talvez isso tivesse acabado de acontecer. Ela sonhara com algo ou alguém, mas não lembrava exatamente. Por isso, a sensação de vazio. A eterna dúvida de Dom Casmurro seguia por essa linha. Aconteceu ou não? Fato ou ilusão? O sonho estava presente nela, mas não se manifestava. A vida estava presente nela, mas não se manifestava. Os sentimentos estavam presentes nela, mas não se manifestavam. Sobre Dom Casmurro, ela tinha suas conclusões: Capitu sempre fora a vítima. Foi ela que esperou a vida inteira pela saída de Bentinho do seminário, foi ela que lhe deu um filho, foi ela que sempre ficou ao lado dele e teve que suportar a sensação de ter seu sentimento julgado paranoicamente por aquele a quem dedicou a própria vida. Ah, a injustiça do mundo e a beleza das contradições causadas por palavras não ditas...

Saía, agora, de análises literárias e mergulhava nas lembranças. Sentia saudades de Marcelo. Talvez, se estivesse ao lado dela durante um dos novos dias, conversaria sobre o gol que fez na última partida em que seu time jogou, sobre a bronca que levou do treinador, sobre a sua rotina corrida que, naquela época, era quase idêntica à dela. Eles tinham problemas diferentes e viviam situações diferentes, talvez por isso tivessem conversas sempre tão produtivas. Era bom ter contato com um mundo que não era dela e que ela, de maneira alguma, desejaria participar. Tratava-se apenas de conhecimento, sem mais pretensões. Sentia saudades sinceras de quando ele “roubava” sua apostila para rabiscar o próprio nome, de quando eles iam ao shopping mais próximo comprar seus chocolates preferidos, do jeito com que ele falava “te adoro” no meio de uma conversa totalmente banal, de como ela se sentia mais respeitada do que as outras garotas que conviviam com ele, do dia em que ele esteve doente e ela andara pelo bairro inteiro procurando comprar um remédio para aliviar sua dor, do dia em que ela esteve doente e ele ficou o tempo inteiro ao lado dela – remédios não eram necessários naquela ocasião – dizendo apenas que precisava cuidar dela da mesma maneira com que foi cuidado, da sua mania de estralar os dedos e de tantos outros detalhes que estiveram presentes na amizade deles, que foi ao mesmo tempo tão intensa e tão efêmera.

Pensava em possibilidades. O que poderia ter acontecido? Será que, não fossem as circunstâncias, a vida dela poderia ser diferente do que estava sendo agora? Luiza, aquela que transmite luz, que tem seu nome protagonizando uma das mais belas canções da música brasileira. Teria ela deixado pessoas importantes para trás? Não, não pode ser possível. Ela sempre tentara ser a pessoa mais amável e mais carinhosa com todos aqueles com quem se importava. Em sua nova rotina, até aparecera alguém que parecia se importar com ela e desejar estar perto dela. Por mais que ele não a conhecesse completamente, ela conseguia sentir uma vontade de aproximação vinda dessa pessoa. Talvez estivesse na hora de admitir que, na verdade, ela é quem fora deixada para trás. Talvez estivesse na hora de viver, de parar de ter medo e de arriscar se machucar.
Promoveu o leve encontro das pálpebras por alguns instantes, deixando de iluminar o quarto com o brilho castanho que vinha daquele olhar. A dor de cabeça havia desaparecido. Levantou-se, tomou um banho demorado e arrumou-se, cantarolando uma canção qualquer. Destruída por dentro de tanto pensar e, mesmo assim, sustentando uma aura quase indestrutível por fora. Como só as mulheres decididas sabem fazer.





PS: Texto inspirado em “As Horas”, de Michael Cunningham. Qualquer semelhança não é mera coincidência.
PS2: Luiza, minha primeira criação de personagem com um quê de esfericidade, estava dentro de mim há tempos. Ainda penso nesse nome para minha primeira filha. Ela merecerá uma música e, se é para ter uma música, que seja a mais linda das músicas. Luizas são minhas criações e, de certa forma, pedaços de mim.

Sobre janelas, pássaros e prisões.




Feriado. Fim de tarde. Após ver um filme mediano, estava gastando meu precioso tempo livre da maneira da qual mais gosto: lendo um livro. Não, não tinha nada a ver com vestibular. Era um livro introspectivo, cujas 16 primeiras páginas já estavam no limite de arrancar-me lágrimas.

Eis que ouço um bater de asas. A janela do meu quarto é coberta pelo que chamam de toldo, a cobertura rosa da janela da foto. Dois pássaros estavam presos dentro desse toldo, voaram lá para baixo de alguma maneira e não conseguiam mais sair. Eles pareciam sofrer. Havia uma barreira que os separava do mundo, eles estavam presos naquela minúscula área escura e coberta, não viam o céu e só sabiam bater as asas insistentemente. Larguei o livro sentimental e fui ver de perto o que acontecia. Tentei chamá-los (o que rendeu risadas aqui em casa, eu os chamava como se fossem cachorrinhos), tentei bater na janela para que se assustassem com a minha fingida agressividade e se libertassem dali, pus as mãos para fora e tentei tocá-los. Mas eu falhei, pra variar. Meus braços são pequenos demais, eu não sei enganar as pessoas fingindo ser rude, minha máscara acaba caindo nessas situações e eu acabo sendo refém de mim mesma ao realizar algum ato amável, quase sempre. O fato é que eles ainda estavam ali, sendo privados do mundo que os cercava. Por alguns momentos, pararam e pousaram nos ferros internos do toldo, como se desistissem. Como se permitissem que aquela cobertura os oprimisse e os fizesse sofrer. Às vezes, nos acostumamos com o sofrimento. Às vezes o fato de certas situações nos trazerem pequenas alegrias momentâneas nos faz esquecer que as tristezas e destruições são muito maiores que os efêmeros segundos de felicidade. Então, continuamos a sofrer esperando pacientemente o próximo mínimo momento feliz chegar. Tornamo-nos conformados, deixamos para lá e seguimos o desperdício de um tempo que poderia ser tão melhor aproveitado.

Estava observando-os e pensando sobre isso, até que um deles conseguiu escapar. Quase numa queda livre, mergulhou e alçou vôo em direção ao seu destino incerto. O outro ficou ali, estagnado, conformado, parecia que ficaria preso eternamente. Olhava fixamente para a barreira que o impedia de voar e continuava pousado em cima dos ferros de sustentação do toldo. Falava pra ele, nos meus pensamentos: “Por favor, por favor, deixa eu te ensinar a voar?”. Tinha vontade de ensiná-lo, como se ele não soubesse. Falaria, daquele meu jeito, que a situação era simples e o mundo é que fez questão de complicá-la. Era só mergulhar no ar, voar baixo e sair daquela clausura que o tirava do céu. Eu faria tudo, daria tudo de mim pra libertá-lo. Tudo bem, pode ser só um pássaro, mas eu tenho um instinto que me diz pra evitar qualquer tipo de sofrimento que possa ser evitado. O instinto era categórico ao deixar bem claro que eu tinha que fazer tudo o que fosse possível pra libertá-lo. Dar-lhe o mundo era o que eu mais queria. Depois de um tempo, de alguma maneira, ele parece ter me ouvido. Finalmente tomou coragem, atirou-se, libertou-se e voou.

O curioso é que ele não voou para longe. Pousou num fio ali, em frente à minha janela. Como se, ao ficar ali parado, me dissesse: “Desculpe, mas agora eu vou ter que me despedir de você. Não posso ser seu, não posso estar sempre com você, não posso tirar essa sua solidão que já se encontra enraizada. Você me ajudou e agora estou indo embora. Preciso da minha liberdade e da minha conformidade em sofrer nas gaiolas que aparecem na minha frágil vida. Peço desculpas, muitas desculpas, por não poder salvar-lhe. Mas agradeço eternamente a você, minha salvadora.”

De mim, uma prosa poética.

Meu mundo é feito de observações. Pequenos fragmentos de memórias, experiências que são acumuladas como um arquivo infindável de fatos que estão sempre prontos para uma rápida pesquisa, em qualquer situação. Meu mundo é feito de momentos epifânicos, de fins de tarde sinfônicos, de explosões de cores, de desilusões de amores, de súplica por abraços, de superação de obstáculos, de zelo pelos amados, de respirações profundas, de silêncios calculados, de segredos guardados, de corações apertados. Meu mundo se distribui uniformemente e não pode ser visto, apesar de permitir que sintam quando estão dentro dele. Faz-se uma bolha, exigindo atenção e capturando todas as coisas boas no maior raio de distância possível. Ele vê e ouve tudo o que está ao seu redor e é um ótimo medidor de sentimentos alheios, apesar de perder-se nos que pertencem a si próprio. Meu mundo é confuso. Às vezes parece um quadro de Da Vinci, com suas formas milimetricamente definidas e sua iluminação perfeita; às vezes parece um quadro de Salvador Dalí, com suas idéias tão caleidoscópicas que parecem as mais sãs do planeta; às vezes parece um quadro abstrato qualquer, sem definição de imagem e que só é real por causa da existência de suas cores pragmáticas. Meu mundo é incompleto, mas nem por isso é desesperançoso. Ele busca nos mais banais detalhes uma alegria qualquer, um bem-me-quer, um sopro de satisfação, um alívio pro coração. Meu mundo é bonito e claro, como um domingo límpido iluminado por olhos azuis infantis, mas isso não quer dizer que a chuva não venha querer apagar-lhe a beleza às vezes. Muitas vezes, tantas vezes. Meu mundo é musical. Encanta-se e perde-se de amores por qualquer tom angelical, por qualquer recital, por quaisquer interpretações, por quaisquer sensações. Meu mundo derrete-se até pelos erros que, se cometidos de forma natural, fazem da música o bem mais magistral. Meu mundo não tem endereço fixo. Gosta de perder-se por aí, de vagar dentro de mim, de escapar-me entre os dedos. Meu mundo é dedicado, é intenso, é apaixonado, é literário, é imaginativo, é oblíquo e é dissimulado. Meu mundo foge de conceitos e se esconde para não precisar ser interpretado. Meu mundo, muitas vezes, sou eu. Ele mostra todas as faces de mim. E eu me surpreendo comigo mesma, todos os dias.