terça-feira, 29 de setembro de 2009



Pois é, a bruxa tá solta.

terça-feira, 8 de setembro de 2009


Suba os degraus, dê asas à música.

domingo, 6 de setembro de 2009

Cacos.

A noite de sábado seguia, alegre. O céu estrelado era convidativo, mas não conseguia atingi-los completamente. Um jardim de uma praça qualquer nas proximidades do escritório, escolhido para um descanso pós-expediente, parecia o cenário ideal. Bicicletas, livros, violões e bancos de madeira acompanhavam a trajetória daqueles dois. Estavam ali, sentados na grama, negando tudo o que aquele lugar oferecia, incluindo a alegria da noite que avançava. Dois colegas de rotina, de corredores, de cafezinhos. Duas porções de cacos de porcelana, restos de algo bonito em outros tempos, que, mesmo sabendo que a recuperação total nunca seria possível, ansiavam por um método revolucionário qualquer que os fizesse voltar ao estágio anterior às inúmeras quebras.

Ele bebia. Não por questão de inflar seu ego perante outrem, mas por estar acostumado à doce companhia do álcool e por não ver nada de mal em beber um pouco quando se tem vontade. Ela também bebia. Não por influência alheia, mas por puro e simples escapismo. Que há de mal em usar de artifícios para aliviar os problemas terrenos, desde que não se exagere e não se tenha a lucidez completamente perdida? Os dois concordavam: nada.

E tudo. Concordavam em praticamente tudo. E a pequena garrafa de vodka ali, concordando com eles. Sobre as questões existenciais e sobre as tentativas de exercer algum tipo de arte que faça desse mundo algo menos hostil. Naquela noite de sábado, os dois conseguiam brilhar. Segundo alguns, tinham luz própria. Sempre muito admirados pelos amigos. Sempre muito elogiados (mesmo com uma leviandade escancarada) pelos falsos colegas.

Ela já fazia declarações menos calculadas. Chegou-se ao assunto mais delicado: a existência (ou não) do Amor. Ele, por estar mais acostumado aos efeitos que a bebida causava, percebia que ela já estava ligeiramente alterada. Resolveu, por si, parar. Continuou a ouvi-la soltando dores de outros amores e falou daquela outra que o transformara em tal amontoado de escombros. Derramou o que havia no âmago de si sobre aquela velha circunstância, que há muito saíra de seus dias. Ela, de falante compulsiva, passou a ser ouvinte exemplarmente atenta. Talvez fosse hora de um teste.
- Quer saber? Vou ligar pra ela. Preciso falar o que tá preso na minha garganta.
- Cala a boca! Você tá aqui comigo, não vai ligar pra ninguém. Se eu conseguir que uma pessoa esteja em minha companhia sem pensar em mais ninguém pelo menos uma vez na vida, já me dou por satisfeita!
“Ela é intensa mesmo, mas acabou de demonstrar sua fraqueza”, pensou, rindo por dentro. “Talvez seja o álcool, talvez sejam os próprios cacos, despertados de seu silêncio sepulcral.”

O tempo passava arrastado, as estrelas sentiam inveja do brilho daquelas palavras que jorravam pela grama. Alguns existencialismos mais tarde, ela demonstrava sonolência. Acabou dormindo nos braços dele, que só então visualizava com mais clareza os tênues traços que se manifestavam naquela mulher tão independente, tão competente, tão segura de si. Um leão, que arranca as próprias entranhas para livrar-se de um sofrimento qualquer, se preciso for. Mas que ali, imersa nas trevas do que já era madrugada, reluzia como um filhote inofensivo que não pedia nada além de atenção e de carinho.

Levou-a até sua casa. Assegurando-se de que estava tudo bem e deixando claro para a família dela que a sonolência se devia muito mais ao cansaço do que à bebida propriamente dita, saiu. Ganhava distância e perdia luz, conforme os ponteiros do relógio caminhavam.

No dia seguinte, levantou-se no horário habitual e ocultou seu brilho na costumeira máscara de regras sociais. A mesma rotina, os mesmos corredores, os mesmos cafezinhos. Mas ela não estava lá. Provavelmente, dormira mais que o habitual. Com um ar de desinteresse, perguntou à melhor amiga dela se estava tudo em ordem. Sim, estava. Na mais perfeita ordem, só houvera um pequeno atraso. Deveria estar a caminho. Como sempre, eficiente e responsável. Ele perdia-se em indagações sobre a noite anterior, será que ela lembraria de tudo? A mesma amiga, depois de observar longamente a feição dele, tomou coragem e perguntou:
- Tem alguma coisa te preocupando? Tá com um ar pensativo.
- Não, não. Nada.

E sorriu. Assim, de canto de boca, como quem descobre a solução para um quebra-cabeças feito de cacos de porcelana.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Uma pequena conclusão:

As minhas anotações de outrora já não fazem mais sentido.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Das questões da vida.

MOTE

Quem ora soubesse
onde o Amor nasce,
que o semeasse!

VOLTAS (GLOSA)

D'amor e seus danos
me fiz lavrador
semeava amor
e colhia enganos;
não vi, em meus anos
homem que apanhasse
o que semeasse
[...]
Com quanto perdi,
trabalhava em vão;
se semeei grão
grande dor colhi.
Amor nunca vi
que muito durasse,
que não magoasse.


Questão 54: Do ponto de vista da temática desenvolvida no poema, pode-se afirmar que:
a) "Quem semeia ventos, colhe tempestades" é um provérbio que resume a ideia principal do poema de Camões.
b) o fato de que aquilo que se semeia é o oposto daquilo que se colhe está ligado ao desconcerto do mundo.
c) as metáforas agrícolas ligam o poema aos temas bucólicos, que foram retomados pelo Arcadismo mais tarde.
d) a ideia principal é a de que é preciso aproveitar o momento presente já que inevitavelmente colheremos sofrimentos.
e) o tema do poema é que o amor não existe.


Enquanto isso, na conferência do gabarito...

- Como assim?! Não acredito que não é o item E!
- Tu marcou o E? Eu fiquei em dúvida entre o E e o B.
- Pois é, de certa forma eu também pensei no B. Mas é ÓBVIO que é o E, pôxa!
- No gabarito diz B.
- Mas o amor não existe, Lidiane.
- Não confunda sua vida sentimental com a prova, flor.
- Hahaha, preciso me lembrar disso. *suspiro* Hunf. Mas pelo menos a questão eu queria ter ganho.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Ao som de Marisa Monte.

Não sei mais. Já soube, já quis saber, já me importei. O fato de continuar me importando às vezes só me mostra o quanto eu ainda consigo ser ingênua. Logo eu, tão forte, sempre aguentando calada tanta barra... Mas, do nada, vem aquela vontade incontrolável de chorar. Assim, no meio da rua, sem motivo aparente. Basta uma faísca de memória, um fato que passa de relance que te passe algum significado. Aí pronto. A roda gira e gira e gira e você não sabe por que entrou nela e muito menos como sair. A tontura te domina e a única coisa que você deseja é voltar pra sua casa, pra sua rotina medíocre, pra sua vida normalzinha, pras suas atitudes que se encontram Dentro Dos Parâmetros De Segurança.

Aí dá aquela vontade de sair, de reencontrar velhos amigos, de conhecer novos, de dançar ao som daquelas músicas mais significativas. Mas isso não pode, é contra aquela frase tão verdadeira que é dita com tanta freqüência: Tô sem tempo, tô cansada.

Que fazer, então? Alimentar a alma, já que os próprios olhos estão cansados de brilhar enquanto nada verdadeiramente vêem. O fato de ser-ninguém até que te dá certa liberdade pra esquecer o mundo e cuidar de si um pouco. O fato de ser-ninguém faz com que você tenha vontade de ser verdadeiramente Alguém, assim, com letra maiúscula, nem que seja só pra você mesma. Novos livros, o máximo de consumismo que eu me permito ter. E vem Clarice, e vem Caio, e vêm assuntos históricos, e vem Fernando Sabino, e vem Anthony Burgess, e vem Chico Buarque.

Aí dá aquela vontade de parar tudo o que se está fazendo e mergulhar nessas palavras tão densas, que te prendem a um mundo que não é o seu. Perder-se nas palavras alheias é uma ótima maneira de driblar um pouco o vazio que te engole.

Mas não posso, não devo. Se existe um objetivo, é ele que deve nortear o meu caminho e os meus pensamentos. O resto é resto. Ninguém é feliz com resto. Pensando exatamente nisso, a feminilidade exala nos tons e nas cores que te fazem ficar mais leve. E vem a mudança nos cabelos, os cortes, o prender diferente, a fivela no lugar estratégico, a nova arrumação e o novo resultado. E vêm as unhas, vermelhas, de um sangue que insiste em existir e em correr dilacerante. E vem o sorriso, mesmo aqueles meio tristes, de satisfação consigo mesma. A feminilidade, desde que sem exageros, transforma o que era resto em algo passível de admiração.

E, usando de sorrisos como esses, a vida vai passando. O tempo vai passando, as memórias vão-se apagando. Tal qual pétala de flor guardada dentro de livro, que, ao secar, tem o seu perfume arrancado de si e transferido para o papel.

Eis a pergunta: O que me importa?
Não sei mais.
De flor, agora sou apenas pétala. Estou presa no livro da minha própria Vida, deleitando-me enquanto posso com o aroma do meu próprio perfume, sem saber até quando ele vai existir em mim.


segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Domingo.

Acordou cedo, como de costume. Estudou um pouco, tocou violão, viu trechos de documentários. Saiu para almoçar e viu um saco plástico voando a uma altura imensa. Ele parecia dançar no ar. Ficou olhando aquilo em contraste com o azul tão límpido do céu até o dançarino branco sair do seu raio de visão. Andou mais rápido, que o sol escaldava.

Algum tempo depois, se via parada em frente a um cesto enorme cheio de bichos de pelúcia em um hipermercado qualquer. Unicórnios, ursos, macacos, tigres, cavalos. Alguém comentou sobre o olhar de felicidade que algumas pessoas lançam quando vêem bichos de pelúcia. Ficou imaginando o seu próprio olhar naquela situação. Devia estar radiante. Pensou em comprar um daqueles, pensou na companhia que eles fariam durante a noite. Mas pensou também que, para se ter um daqueles, teria que pensar em alguém todas as vezes que visse o cavalo, ou o unicórnio, ou o urso. E não haveria lembrança nenhuma a não ser a daquela tarde de domingo e daquela pessoa falando sobre os olhares. Não, não se podia adqüirir um tão facilmente assim. Chegou à conclusão que essas coisas não foram feitas para serem compradas e, sim, para serem presenteadas.

Uma leve melancolia estabeleceu-se ali. Pegou um tigre por quem se afeiçoara instantaneamente. Não era muito grande nem muito caro. Também não era o mais cobiçado. Era só diferente dos outros. Olhou demoradamente para o tigre e teve de soltá-lo ali, bem em cima da pilha de bichos. Sem despedir-se, saiu pensando não ser feita para tais coisas, para tais presentes, para tais brilhos no olhar.

Chegou em casa acometida de uma saudade avassaladora. Era tanta e tão intensa que quase se podia ver, ouvir e tocar. Era a barragem de um rio, não agüentando a pressão das águas e fragmentando-se, inundando tudo num raio de infindáveis extensões de terra. Tentou voltar a estudar, não conseguiu. Tomou um banho demorado, cuidou dos cabelos, viu um filme.

À noitinha, recebeu uma ligação. Soube que uma pessoa espalhara veneno na rua em que sua mãe morava antigamente, matando oito gatos da vizinhança. Oito famílias foram despedaçadas. Entre os que morreram estava o gato de sua própria mãe, que ela presenteara para que sua genitora não se sentisse sozinha ao levar a nova vida. Aquele gato tão carinhoso, que doava um afeto tão gratuito, mas que teve de ser deixado aos cuidados de uma vizinha quando se deu a mudança para outros ares. Foi-se também o gato de uma criança por quem ela tem um carinho enorme. O coração daquela loirinha de olhos azuis faiscantes, já frágil pela leucemia, foi terrivelmente abalado pela perda de um dos seus únicos companheiros. Depois do acontecido, ela teve crises graves e passou bem perto da Morte. Graças a Deus, passou apenas perto.

Foi levada a pensar em como seria sua vida sem uma das pessoas que mais ama. Sentiu dor, sentiu vazio, lembrou de muitas situações. Mas esse assunto trouxe alívio também, por saber que essa pessoa continuaria ali e ainda compartilharia inúmeros sorrisos com ela.

Decidiu dormir, que estava precisando. Não conseguia. Acometida pela saudade novamente, torcia para que o feriado acabasse logo. A loucura da rotina apaziguava um pouco esse fluxo de sentimentos estranhos. Mas, ao invés do sonho, continuava vindo saudade. Pensou nos bichos de pelúcia e pensou no que a sua vida vinha reservando para ela ao longo dos últimos tempos. Imaginou o sorriso daquelas crianças empobrecidas, ao ganhar um brinquedo usado por outros que não o valorizam tanto. Elas cuidam com tanto zelo e com tanto amor daquilo que, para as outras, não tem o mínimo significado... Ela sabe como é esse sentimento. Mas agora não passava de uma teoria. No momento, se punha no lugar daquelas crianças que não têm sequer os tais brinquedos usados. Ficam felizes apenas em observar o comportamento das que podem espalhar o amor que têm dentro de si. Pediu a Deus que lhe desse sono e que lhe desse força para continuar. Ambos os pedidos foram atendidos. Apesar das poucas horas de sono, levantou-se no horário habitual, com uma vontade incorrigível de estar linda e de rir até as bochechas doerem.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Os dragões não conhecem o paraíso.

Tenho um dragão que mora comigo.

Não, isso não é verdade.

Não tenho nenhum dragão. E, ainda que tivesse, ele não moraria comigo nem com ninguém. Para os dragões, nada mais inconcebível que dividir seu espaço - seja com outro dragão, seja com uma pessoa banal feito eu. Ou invulgar, como imagino que os outros devam ser. Eles são solitários, os dragões. Quase tão solitários quanto eu me encontrei, sozinho neste apartamento, depois de sua partida. Digo quase porque, durante aquele tempo em que ele esteve comigo, alimentei a ilusão de que meu isolamento para sempre tinha acabado. E digo ilusão porque, outro dia, numa dessas manhãs áridas da ausência dele, felizmente cada vez menos freqüentes (a aridez, não a ausência), pensei assim: Os homens precisam da ilusão do amor da mesma forma que precisam da ilusão de Deus. Da ilusão do amor para não afundarem no poço horrível da solidão absoluta; da ilusão de Deus, para não se perderem no caos da desordem sem nexo.

Isso me pareceu gradiloqüente e sábio como uma idéia que não fosse minha, tão estúpidos costumam ser meus pensamentos. E tomei nota rapidamente no guardanapo do bar onde estava. Escrevi também mais alguma coisa que ficou manchada pelo café. Até hoje não consigo decifrá-la. Ou tenho medo da minha - felizmente indecifrável - lucidez daquele dia.

Estou me confundindo, estou me dispersando.

O guardanapo, a frase, a mancha, o medo - isso deve vir mais tarde. Todas essas coisas de que falo agora - as particularidades dos dragões, a banalidade das pessoas como eu -, só descobri depois. Aos poucos, na ausência dele, enquanto tentava compreendê-lo. Cada vez menos para que minha compreensão fosse sedutora, e cada vez mais para que essa compreensão ajudasse a mim mesmo a. Não sei dizer. Quando penso desse jeito, enumero proposições como: a ser uma pessoa menos banal, a ser mais forte, mais seguro, mais sereno, mais feliz, a navegar com um mínimo de dor. Essas coisas todas que decidimos fazer ou nos tornar quando algo que supúnhamos grande acaba, e não há nada a ser feito a não ser continuar vivendo.

Então, que seja doce. Repito todas as manhãs, ao abrir as janelas para deixar entrar o sol ou o cinza dos dias, bem assim: que seja doce. Quando há sol, e esse sol bate na minha cara amassada do sono ou da insônia, contemplando as partículas de poeira soltas no ar, feito um pequeno universo, repito sete vezes para dar sorte: que seja doce que seja doce que seja doce e assim por diante. Mas, se alguém me perguntasse o que deverá ser doce, talvez não saiba responder. Tudo é tão vago como se não fosse nada.

Ninguém perguntará coisa alguma, penso. Depois continuo a contar para mim mesmo, como se fosse ao mesmo tempo o velho que conta e a criança que escuta, sentado no colo de mim. Foi essa a imagem que me veio hoje pela manhã quando, ao abrir a janela, decidi que não suportaria passar mais um dia sem contar esta história de dragões. Consegui evitá-la até o meio da tarde. Dói, um pouco. Não mais uma ferida recente, apenas um pequeno espinho de rosa, coisa assim, que você tenta arrancar da palma da mão com a ponta de uma agulha. Mas, se você não consegue extirpá-lo, o pequeno espinho pode deixar de ser uma pequena dor para se transformar numa grande chaga.

Assim, agora, estou aqui. Ponta fina de agulha equilibrada entre os dedos da mão direita, pairando sobre a palma aberta da mão esquerda. Algumas anotações em volta, tomadas há muito tempo, o guardanapo de papel do bar, com aquelas palavras sábias que não parecem minhas e aquelas outras, manchadas, que não consigo ou não quero ou finjo não poder decifrar.

Ainda não comecei.

Queria tanto saber dizer Era uma vez. Ainda não consigo.

Mas preciso começar de alguma forma. E esta, enfim, sem começar propriamente, assim confuso, disperso, monocórdio, me parece um jeito tão bom ou mau quanto qualquer outro de começar uma história. Principalmente se for uma história de dragões.

Gosto de dizer tenho um dragão que mora comigo, embora não seja verdade. Como eu dizia, um dragão jamais pertence a, nem mora com alguém. Seja uma pessoa banal igual a mim, seja unicórnio, salamandra, harpia, elfo, hamadríade, sereia ou ogro. Duvido que um dragão conviva melhor com esses seres mitológicos, mais semelhantes à natureza dele, do que com um ser humano. Não que sejam insociáveis. Pelo contrário, às vezes um dragão sabe ser gentil e submisso como uma gueixa. Apenas, eles não dividem seus hábitos.

Ninguém é capaz de compreender um dragão. Eles jamais revelam o que sentem. Quem poderia compreender, por exemplo, que logo ao despertar (e isso pode acontecer em qualquer horário, às três ou às onze da noite, já que o dia e a noite deles acontecem para dentro, mas é mais previsível entre sete e nove da manhã, pois essa é a hora dos dragões) sempre batem a cauda três vezes, como se tivessem furiosos, soltando fogo pelas ventas e carbonizando qualquer coisa próxima num raio de mais de cinco metros? Hoje, pondero: talvez seja essa a sua maneira desajeitada de dizer, como costumo dizer agora, ao despertar - que seja doce.

Mas no tempo em que vivia comigo, eu tentava - digamos - adaptá-lo às circunstâncias. Dizia por favor, tente compreender, querido, os vizinhos banais do andar de baixo já reclamaram da sua cauda batendo no chão ontem às quatro da madrugada. O bebê acordou, disseram, não deixou ninguém mais dormir. Além disso, quando você desperta na sala, as plantas ficam todas queimadas pelo seu fogo. E, quanto você desperta no quarto, aquela pilha de livros vira cinzas na minha cabeceira.

Ele não prometia corrigir-se. E eu sei muito bem como tudo isso parece ridículo. Um dragão nunca acha que está errado. Na verdade, jamais está. Tudo que faz, e que pode parecer perigoso, excêntrico ou no mínimo mal-educado para um humano igual a mim, é apenas parte dessa estranha natureza dos dragões. Na manhã, na tarde ou na noite seguintes, quanto ele despertasse outra vez, novamente os vizinhos reclamariam e as prímulas amarelas e as begônias roxas e verdes, e Kafka, Salinger, Pessoa, Clarice e Borges a cada dia ficariam mais esturricados. Até que, naquele apartamento, restássemos eu e ele entre as cinzas. Cinzas são como sedas para um dragão, nunca para um humano, porque a nós lembra destruição e morte, não prazer. Eles trafegam impunes, deliciados, no limiar entre essa zona oculta e a mais mundana. O que não podemos compreender, ou pelo menos aceitar.

Além de tudo: eu não o via. Os dragões são invisíveis, você sabe. Sabe? Eu não sabia. Isso é tão lento, tão delicado de contar - você ainda tem paciência? Certo, muito lógico você querer saber como, afinal, eu tinha tanta certeza da existência dele, se afirmo que não o via. Caso você dissesse isso, ele riria. Se, como os homens e as hienas, os dragões tivessem o dom ambíguo do riso. Você o acharia talvez irônico, mas ele estaria impassível quanto perguntasse assim: mas então você só acredita naquilo que vê? Se você dissesse sim, ele falaria em unicórnios, salamandras, harpias, hamadríades, sereias e ogros. Talvez em fadas também, orixás quem sabe? Ou átomos, buracos negros, anãs brancas, quasars e protozoários. E diria, com aquele ar levemente pedante: "Quem só acredita no visível tem um mundo muito pequeno. Os dragões não cabem nesses pequenos mundos de paredes invioláveis para o que não é visível".

Ele gostava tanto dessas palavras que começam com in - invisível, inviolável, incompreensível -, que querem dizer o contrário do que deveriam. Ele próprio era inteiro o oposto do que deveria ser. A tal ponto que, quando o percebia intratável, para usar uma palavra que ele gostaria, suspeitava-o ao contrário: molhado de carinho. Pensava às vezes em tratá-lo dessa forma, pelo avesso, para que fôssemos mais felizes juntos. Nunca me atrevi. E, agora que se foi, é tarde demais para tentar requintadas harmonias.

Ele cheirava a hortelã e alecrim. Eu acreditava na sua existência por esse cheiro verde de ervas esmagadas dentro das duas palmas das mãos. Havia outros sinais, outros augúrios. Mas quero me deter um pouco nestes, nos cheiros, antes de continuar. Não acredite se alguém, mesmo alguém que não tenha um mundo pequeno, disser que os dragões cheiram a cavalos depois de uma corrida, ou a cachorros das ruas depois da chuva. A quartos fechados, mofo, frutas podres, peixe morto e maresia - nunca foi esse o cheiro dos dragões.

A hortelã e alecrim, eles cheiram. Quando chegava, o apartamento inteiro ficava impregnado desse perfume. Até os vizinhos, aqueles do andar de baixo, perguntavam se eu andava usando incenso ou defumação. Bem, a mulher perguntava. Ela tinha uns olhos azuis inocentes. O marido não dizia nada, sequer me cumprimentava. Acho que pensava que era uma dessas ervas de índio que as pessoas costumam fumar quando moram em apartamentos, ouvindo música muito alto. A mulher dizia que o bebê dormia melhor quando esse cheiro começava a descer pelas escadas, mais forte de tardezinha, e que o bebê sorria, parecendo sonhar. Sem dizer nada, eu sabia que o bebê sonhava com dragões, unicórnios ou salamandras, esse era um jeito do seu mundo ir-se tornando aos poucos mais largo. Mas os bebês costumam esquecer dessas coisas quanto deixam de ser bebês, embora possuam a estranha facilidade de ver dragões - coisa que só os mundos muito largos conseguem.

Eu aprendi o jeito de perceber quando o dragão estava a meu lado. Certa vez, descemos juntos pelo elevador com aquela mulher de olhos-azuis-inocentes e seu bebê, que também tinha olhos-azuis-inocentes. O bebê olhou o tempo todo para onde estava o dragão. Os dragões param sempre do lado esquerdo das pessoas, para conversar direto com o coração. O ar a meu lado ficou leve, de uma coloração vagamente púrpura. Sinal que ele estava feliz. Ele, o dragão, e também o bebê, e eu, e a mulher, e a japonesa que subiu no sexto andar, e um rapaz de barba no terceiro. Sorríamos suaves, meio tolos, descendo juntos pelo elevador numa tarde que lembro de abril - esse é o mês dos dragões - dentro daquele clima de eternidade fluida que apenas os dragões, mas só às vezes, sabem transmitir.

Por situações como essa, eu o amava. E o amo ainda, quem sabe mesmo agora, quem sabe mesmo sem saber direito o significado exato dessa palavra seca - amor. Se não o tempo todo, pelo menos quanto lembro de momentos assim. Infelizmente, raros. A aspereza e avesso parecem ser mais constantes na natureza dos dragões do que a leveza e o direito. Mas queria falar de antes do cheiro. Havia outros sinais, já disse. Vagos, todos eles.

Nos dias que antecediam a sua chegada, eu acordava no meio da noite, o coração disparado. As palmas das mãos suavam frio. Sem saber porque, nas manhãs seguintes, compulsivamente eu começava a comprar flores, limpar a casa, ir ao supermercado e à feira para encher o apartamento de rosas e palmas e morangos daqueles bem gordos e cachos de uvas reluzentes e berinjelas luzidias (os dragões, descobri depois, adoram contemplar berinjelas) que eu mesmo não conseguia comer. Arrumava em pratos, pelos cantos, com flores e velas e fitas, para que os espaços ficassem mais bonitos.

Como uma fome, me dava. Mas uma fome de ver, não de comer. Sentava na sala toda arrumada, tapete escovado, cortinas lavadas, cestas de frutas, vasos de flores - acendia um cigarro e ficava mastigando com os olhos a beleza das coisas limpas, ordenadas, sem conseguir comer nada com a boca, faminto de ver. À medida que a casa ficava mais bonita, eu me tornava cada vez mais feio, mais magro, olheiras fundas, faces encovadas. Porque não conseguia dormir nem comer, à espera dele. Agora, agora vou ser feliz, pensava o tempo todo numa certeza histérica. Até que aquele cheiro de alecrim, de hortelã, começasse a ficar mais forte, para então, um dia, escorregar que nem brisa por baixo da porta e se instalar devagarzinho no corredor de entrada, no sofá da sala, no banheiro, na minha cama. Ele tinha chegado.

Esses ritmos, só descobri aos poucos. Mesmo o cheiro de hortelã e alecrim, descobri que era exatamente esse quando encontrei certas ervas numa barraca de feira. Meu coração disparou, imaginei que ele estivesse por perto. Fui seguindo o cheiro, até me curvar sobre o tabuleiro para perceber: eram dois maços verdes, a hortelã de folhinhas miúdas, o alecrim de hastes compridas com folhas que pareciam espinhos, mas não feriam. Pergunte o nome, o homem disse, eu não esqueci. Por pura vertigem, nos dias seguintes repetia quanto sentia saudade: alecrim hortelã alecrim hortelã alecrim hortelã alecrim.

Antes, antes ainda, o pressentimento de sua visita trazia unicamente ansiedade, taquicardias, aflição, unhas roídas. Não era bom. Eu não conseguia trabalhar, ir ao cinema, ler ou afundar em qualquer outra dessas ocupações banais que as pessoas como eu têm quando vivem. Só conseguia pensar em coisas bonitas para a casa, e em ficar bonito eu mesmo para encontrá-lo. A ansiedade era tanta que eu enfeiava, à medida que os dias passavam. E, quando ele enfim chegava, eu nunca tinha estado tão feio. Os dragões não perdoam a feiúra. Menos ainda a daqueles que honram com sua rara visita.

Depois que ele vinha, o bonito da casa contrastando com o feio do meu corpo, tudo aos poucos começava a desabar. Feito dor, não alegria. Agora agora agora vou ser feliz, eu repetia: agora agora agora. E forçava os olhos pelos cantos de prata esverdeadas, luz fugidia, a ponta em seta de sua cauda pela fresta de alguma porta ou fumaça de suas narinas, sempre mau, e a fumaça, negra. Naqueles dias, enlouquecia cada vez mais, querendo agora já urgente ser feliz. Percebendo minha ânsia, ele tornava-se cada vez mais remoto. Ausentava-se, retirava-se, fingia partir. Rarefazia seu cheiro de ervas até que não passasse de uma suspeita verde no ar. Eu respirava mais fundo, perdia o fôlego no esforço de percebê-lo, dia após dia, enquanto flores e frutas apodreciam nos vasos, nos cestos, nos cantos. Aquelas mosquinhas negras miúdas esvoaçavam em volta delas, agourentas.

Tudo apodrecia mais e mais, sem que eu percebesse, doído do impossível que era tê-lo. Atento somente à minha dor, que apodrecia também, cheirava mal. Então algum dos vizinhos batia à porta para saber se eu tinha morrido e sim, eu queria dizer, estou apodrecendo lentamente, cheirando mal como as pessoas banais ou não cheiram quando morrem, à espera de uma felicidade que não chega nunca. Ele não compreenderia. Eu não compreendia, naqueles dias - você compreende?

Os dragões, já disse, não suportam a feiúra. Ele partia quando aquele cheiro de frutas e flores e, pior que tudo, de emoções apodrecidas tornava-se insuportável. Igual e confundido ao cheiro da minha felicidade que, desta e mais uma vez, ele não trouxera. Dormindo ou acordado, eu recebia sua partida como um súbito soco no peito. Então olhava para cima, para os lados, à procura de Deus ou qualquer coisa assim - hamadríades, arcanjos, nuvens radioativas, demônios que fossem. Nunca os via. Nunca via nada além das paredes de repente tão vazias sem ele.

Só quem já teve um dragão em casa pode saber como essa casa parece deserta depois que ele parte. Dunas, geleiras, estepes. Nunca mais reflexos esverdeados pelos cantos, nem perfume de ervas pelo ar, nunca mais fumaças coloridas ou formas como serpentes espreitando pelas frestas de portas entreabertas. Mais triste: nunca mais nenhuma vontade de ser feliz dentro da gente, mesmo que essa felicidade nos deixe com o coração disparado, mãos úmidas, olhos brilhantes e aquela fome incapaz de engolir qualquer coisa. A não ser o belo, que é de ver, não de mastigar, e por isso mesmo também uma forma de desconforto. No turvo seco de uma casa esvaziada da presença de um dragão, mesmo voltando a comer e a dormir normalmente, como fazem as pessoas banais, você não sabe mais se não seria preferível aquele pântano de antes, cheio de possibilidades - que não aconteciam, mas que importa? - a esta secura de agora. Quando tudo, sem ele, é nada.

Hoje, acho que sei. Um dragão vem e parte para que seu mundo cresça? Pergunto - porque não estou certo - coisas talvez um tanto primárias, como: um dragão vem e parte para que você aprenda a dor de não tê-lo, depois de ter alimentado a ilusão de possuí-lo? E para, quem sabe, que os humanos aprendam a forma de retê-lo, se ele um dia voltar?

Não, não é assim. Isso não é verdade.

Os dragões não permanecem. Os dragões são apenas a anunciação de si próprios. Eles se ensaiam eternamente, jamais estréiam. As cortinas não chegam a se abrir para que entrem em cena. Eles se esboçam e se esfumam no ar, não se definem. O aplauso seria insuportável para eles: a confirmação de que sua inadequação é compreendida e aceita e admirada, e portanto - pelo avesso igual ao direito - incompreendida, rejeitada, desprezada. Os dragões não querem ser aceitos. Eles fogem do paraíso, esse paraíso que nós, as pessoas banais, inventamos - como eu inventava uma beleza de artifícios para esperá-lo e prendê-lo para sempre junto a mim. Os dragões não conhecem o paraíso, onde tudo acontece perfeito e nada dói nem cintila ou ofega, numa eterna monotonia de pacífica falsidade. Seu paraíso é o conflito, nunca a harmonia.

Quando volto a pensar nele, nestas noites em que dei para me debruçar à janela procurando luzes móveis pelo céu, gosto de imaginá-lo voando com suas grandes asas douradas, solto no espaço, em direção a todos os lugares que é lugar nenhum. Essa é sua natureza mais sutil, avessa às prisões paradisíacas que idiotamente eu preparava com armadilhas de flores e frutas e fitas, quando ele vinha. Paraísos artificiais que apodreciam aos poucos, paraíso de eu mesmo - tão banal e sedento - a tolerar todas as suas extravagâncias, o que devia lhe soar ridículo, patético e mesquinho. Agora apenas deslizo, sem excessivas aflições de ser feliz.

As manhãs são boas para acordar dentro delas, beber café, espiar o tempo. Os objetos são bons de olhar para eles, sem muitos sustos, porque são o que são e também nos olham, com olhos que nada pensam. Desde que o mandei embora, para que eu pudesse enfim aprender a grande desilusão do paraíso, é assim que sinto: quase sem sentir.

Resta esta história que conto, você ainda está me ouvindo? Anotações soltas sobre a mesa, cinzeiros cheios, copos vazios e este guardanapo de papel onde anotei frases aparentemente sábias sobre o amor e Deus, com uma frase que tenho medo de decifrar e talvez, afinal, diga apenas qualquer coisa simples feito: nada disso existe.

Nada, nada disso existe.

Então quase vomito e choro e sangro quando penso assim. Mas respiro fundo, esfrego as palmas das mãos, gero energia em mim. Para manter-me vivo, saio à procura de ilusões como o cheiro das ervas ou reflexos esverdeados de escamas pelo apartamento e, ao encontrá-los, mesmo apenas na mente, tornar-me então outra vez capaz de afirmar, como num vício inofensivo: tenho um dragão que mora comigo. E, desse jeito, começar uma nova história que, desta vez sim, seria totalmente verdadeira, mesmo sendo completamente mentira. Fico cansado do amor que sinto, e num enorme esforço que aos poucos se transforma numa espécie de modesta alegria, tarde da noite, sozinho neste apartamento no meio de uma cidade escassa de dragões, repito e repito este meu confuso aprendizado para a criança-eu-mesmo sentada aflita e com frio nos joelhos do sereno velho-eu-mesmo:

- Dorme, só existe o sonho. Dorme, meu filho. Que seja doce.

Não, isso também não é verdade.

(Caio Fernando Abreu)


P.S.: Já que o meu tempo de livre e prazerosa escrita foi totalmente substituído pelas redações formalizadas e pelas fórmulas matemáticas, deixo-vos em boa companhia. Meu conto preferido de um dos meus escritores preferidos. Tenho cá comigo as minhas interpretações sobre quem ou o que é o dragão do conto, mas o tempo tem me roubado de mim. Sendo assim, melhor que cada um tire as próprias conclusões e interprete à sua maneira, uma vez que a beleza do conto se faz exatamente nos distintos pontos de vista.
Beijos e queijos de uma pseudo-escritora sem vida e sem coração. Não sei quando postarei escritos meus novamente. Pode ser amanhã, pode ser ano que vem. Carpe Diem.

domingo, 9 de agosto de 2009

De médico e louco todo mundo tem um pouco.

Ando meio mística. Meio dark, meio rock, pintando as unhas de vermelho e acordando de rímel às 6 da manhã. Nada de violão. Sabe como é, falta de tempo e de coração. Tinta vermelha escorre de mim pelo chão. Mistura-se com o branco de algum outro lugar e vira o róseo. Nem bolchevique nem menchevique. Pra quê escolher se se pode misturar? Pra quê pensar se existe a distração? É tão mais cômodo não agir, não falar, não pensar, não aparecer. Esfinges não foram feitas para a compreensão. Quando se tem uma vida inteira pela frente e os próximos meses decidirão o rumo dos seus próximos anos, qualquer tipo de pensamento que envolva algum extremo desvia o foco. Embassa. Quando a claridade por um lado é impossível, melhor mesmo é ter boa visão. E a minha é excelente.

Ah, cara, tô bem, sabe. Apesar do cansaço exacerbado, da pressão vinda de todos os lados e do medo de falhar mais uma vez, eu tô bem. Quando o seu suor é a única prova de seu esforço, você se aproveita dele pra provar pra si que consegue vencer qualquer coisa. Não, não mata. “Perdi um pedaço. Tem tempo. E nem morri.” Adoro ironias, elas me divertem. Leio contos, canto os tons mais altos que a minha modesta voz pode alcançar, escuto tudo no volume mais alto que os meus ouvidos podem suportar. Porque tô viva, tô aqui, mereço gostar de mim. E se eu vivo nadando contra a correnteza e se quebrar a cara já virou rotina, foda-se. Pelo menos eu tenho braços pra nadar e tenho cara pra quebrar. E ah! Sou mulher sim e falo palavrão sim. Moderadamente, claro, mas quando dá vontade, por que não? Falo por mim e para mim, porque é terapêutico e porque hipocrisias sociais andam me aborrecendo. Me respeito, acima de tudo. Respiro o que está ao meu redor, absorvo o que está ao meu redor, multiplico o que eu vejo e somo o inconsciente às atitudes. Meu codinome é intensidade.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Quando os olhos se ausentam.

Fechou os olhos. Aquele par de luzes castanhas que tanto era admirado pelas pessoas que gostavam dela sumiu do mundo por alguns instantes, é o preço que se paga por um momento de reflexão mais profundo. Quando abriu os olhos novamente, viu escuridão. Era tarde da noite e ela só conseguia visualizar formas difusas. O silêncio era avassalador e ela quis quebrá-lo com alguma coisa. Depois de uma respiração profunda, fechou os olhos novamente. Viu um filme ali. Centenas de cenas, de frases, de sensações, de vozes e de memórias rodopiavam à sua volta. Era um filme ligeiramente doloroso, mas que ainda não escapara completamente das cortinas que se faziam perceber atrás de suas pálpebras. (Mas isso não significava que um sorriso, daqueles de canto de boca, deixasse de surgir em algumas cenas.) Talvez tal história nunca escapasse de sua memória, e tal possibilidade a amedrontava. Aquele fechar de olhos denunciava a sua existência. Demorava a dormir, mesmo sabendo que não haveria mais nada a fazer e que precisava acordar cedo no dia seguinte (ou no mesmo dia, já que a madrugada era alta). Ela não queria ter sido tão dura, mas foi. Ela não queria que muita coisa tivesse acontecido, mas aconteceu. Tudo e nada. Aconteceu. Agora ela entendia que dois extremos podem ter a mesma intensidade. Fechou os olhos novamente. Dessa vez, para um sono profundo e sonhos distantes, onde ela poderia sorrir e alcançar a felicidade com um simples estender de mãos.

Tudo de novo.

Estou vestindo, aos poucos, a armadura. Pondo em ordem meus papéis, minhas pastas absurdamente organizadas. Jogando no lixo aqueles que não mais me servem e pondo em lugares de destaque os que têm o devido merecimento. Minha munição, representada pelas canetas e pelas anotações nos cantos das folhas, está sendo reposta. Ganhando novo fôlego depois de um mês de “pausa”. Eu, que me julgo guerreira no front de batalha, também procurei me repôr. Fiz da espada quebrada um motivo mais que suficiente para usar o escudo. Protegida, no topo do meu castelo constituído por livros, reforjei a lâmina outrora partida. E agora me vejo naqueles ínfimos instantes antes de um dos lados dar o primeiro tiro, a primeira flechada ou jogar no ar a primeira lança (depende da sua imaginação ao visualizar a época em que a batalha está inserida). Aquele fino frio na barriga, prenúncio de acontecimentos desgastantes, acompanhado da maior vontade que esses tempos acabem logo e que tragam consigo a sensação de vitória.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Sobre a leitura que não envolve palavras.

Eu sou uma leitora. No sentido mais abrangente da palavra. Aliás, não é só ela – a palavra – que leio. Leio também sensações, algumas verdades escondidas, boas intenções encobertas pela falta de atitude, leviandade oculta em palavras que parecem ser bonitas. Costumo tentar ler o invisível, já que “quem só acredita no visível tem um mundo muito pequeno”. Nem sempre logro êxito e a conseqüência dessas leituras é uma confusão quase constante de sentimentos. E uma dor de cabeça ocasionada não pela leitura em si, mas pelo cansaço. Quando se pensa demais e se está cansada demais, dormir faz-se necessário. Quando não há essa possibilidade, a dor de cabeça vem. Quando há essa possibilidade, a dor de cabeça vem do mesmo jeito. Punição pelos pensamentos? Talvez.

Depois do son(h)o, a dor. Às vezes de cabeça, às vezes de coração. Durmo como uma válvula de escape. Já sonhei com tantas pessoas, com tantas situações, com tantos diálogos. Até com abraços já sonhei. E já pesadelei também, mas desses eu não gosto nem de falar. Sobre as pessoas com que sonho, algumas vêm de anos longínguos e outras de um passado recente (Mas que ainda assim é passado e precisa ser passado. Passado a limpo, passado superado, um pretérito que sequer chegou perto de ser perfeito). Essas pessoas, distantes ou próximas, não sabem que sonho com elas. Melhor não saber, não gosto de explicitar minhas leituras para os objetivos das mesmas. Há mágoa de uns, uma vontade enorme de que tudo dê certo para outros, indiferença para alguns mais, reciprocidade de tudo o que vier de outros ainda. Tudo isso o tempo cura, modifica ou acentua. Vai depender das situações, das leituras e das “páginas” que me forem permitidas ler. Acho que tenho bons olhos, sabe. A questão não é se ensoberbecer, mas fazer um levantamento de mim mesma diante de várias situações similares, opostas, dolorosas ou alegres. Apesar de tudo, acho que meus olhos sabem ser sábios quando precisam e quando devem ser.

Adoro ler desconhecidos. É um passatempo que só ocorre quando encontro alguém que valha a pena tentar ler. Estando acompanhada por amigos ou família em lugares públicos, executo meus processos sem me fazer notar por ninguém além de mim mesma. Curiosamente, as pessoas que valem a pena parecem, de algum modo, escolher ficar perto de onde eu estou. Isso sempre acontece e eu nunca entendi exatamente o porquê. Eu também escolho ficar perto delas. Talvez por ser tão difícil encontrar alguém diferente em meio a tanta futilidade e a tanto lixo. É um apego mútuo a cada momento, sabendo que cada sensação decodificada pode ser a última.

Gosto especialmente dos solitários. Recentemente, vi uma pessoa assim, decifrável, no shopping. Sem roupa de grife, o máximo de barba que sua relativamente pouca idade permitia, um livro, óculos. Por trás dos últimos, olhos castanhos faiscantes. Quem precisa de olhos claros quando se tem um brilho daqueles? Estava na praça de alimentação, sentado numa mesa, concentrado em algo que eu não pude assimilar o que era. Olhar perdido. Exatamente como eu adivinho ser o meu, quando meus olhos teimam em visualizar o que está dentro de mim. Foi ao cinema sozinho. Sei disso porque coincidentemente também fui e escolhemos o mesmo filme. Na ocasião, estava acompanhada pelo meu pai, meu cavaleiro solitário mais nobre. Lembrei de tantos filmes que vi sozinha no cinema. Alguns bons, outros nem tanto. O engraçado é que as outras pessoas costumam pensar que é péssimo estar sozinha numa sala de cinema. Não é tão ruim assim, acreditem. Dependendo do filme, é super agradável. Mas não esqueça de só entrar na sala em um horário bem próximo do início da sessão ou, se preferir, leve um fone de ouvido.

Com ou sem focos de leitura, eu sempre prossigo. Nunca soube qual é meu objetivo; na verdade, creio que este seja inexistente. A causa é, talvez, encontrar nos outros algum tipo de característica semelhante ao que as circunstâncias e a consciência me permitiram ter ao longo dos tombos que levei. Eu tento achar algum tipo de felicidade plena em mim mesma, sabe. Tento de verdade. Não encontrando em mim, busco-a em outros alguéns, ilustres desconhecidos que eu, provavelmente, só verei uma vez na vida. Quando tento ser feliz por mim mesma, levando em consideração apenas o que verdadeiramente tenho, vejo-me numa encruzilhada com inúmeros caminhos, tendo a certeza de que nenhum deles leva a lugar algum.

sábado, 25 de julho de 2009

Sobre a banda do coração.

09 de junho de 2007.

Nessa data, familiar para muitos dos meus amigos, realizou-se aquele que seria o último show do Los Hermanos antes de seu tão comentado “recesso por tempo indeterminado”. Só hoje, mais de dois anos depois, pude ver o dvd resultante daquelas noites e ter a comprovação de que eles marcaram a vida de milhares de pessoas, não só a minha.

Mais de dois anos. Tanta coisa me aconteceu de dois anos pra cá! Naquela época, conturbadíssima pra mim, eu lembro que a notícia do recesso me trouxe lágrimas que saíram assim, naturais. Como se não pudessem ser evitadas, como se fossem absolutamente necessárias. Naquela época, eu ainda estava aprendendo o pouco de violão clássico que sei e foi exatamente a época em que perdi uma tia. Naquela época, eu já tinha o meu vício por fones de ouvido. Gostava de acordar cedíssimo, me arrumar com calma, pegar aquele ônibus e me desligar do mundo através dos fones, que me traziam as duas vozes que mais conseguiam (e conseguem até hoje) me emocionar. Gostava de ouvir antes do colégio, porque me trazia certo alívio para ir a aquele lugar que eu realmente não tolerava. Minhas manhãs preferidas eram as chuvosas, que traziam consigo um toque a mais de solidão e de escuridão, com aquela preguiça do sol de sair de trás das nuvens. O som da chuva misturava-se aos versos das canções e as lágrimas de emoção que eram sempre derramadas pelo público e por mim estavam presentes em forma de gotas caídas do céu.

Nem lembro com exatidão quanto tempo faz que escuto Los Hermanos. Só sei que hoje, muitos anos depois, eu não consigo enjoar das músicas. E, depois de ver esse dvd, ainda tenho os olhos inchados de chorar e a pele cansada de arrepiar-se nos meus versos mais bonitos. Sim, meus. Cada pessoa que se identifica (não gosto da palavra fã) acaba querendo tomar pra si as canções. O que é absolutamente plausível, uma vez que, se os nossos sentimentos são cantados pela voz de outra pessoa, podemos atribui-los a nós mesmos tranqüilamente.

Eles me marcaram muito. Quantas madrugadas em claro eu passei, ouvindo aquelas palavras que pareciam se adequar perfeitamente ao que meu coração queria externar? Quantas lágrimas eu derramei, felizes ou tristes, nos shows e na solidão do meu quarto escuro e sonoro? Quantos amigos eu conquistei, por ter os mesmos gostos? Quantos abraços eu dei e recebi ao som daquelas músicas? Quantas pessoas eu fiz apaixonarem-se pelas canções, ganhando companheiros de shows e de análises de letras? Incontáveis. Incontáveis alegrias, incontáveis arrepios, incontáveis situações regidas pelo som deles.

Naquela noite do show, lembro de não ter dormido. Lembro de ter recebido mensagens de amigos que se encontravam lá, lembrando de mim. Mensagens dizendo qual música estava tocando naquele momento, sobre a aura do lugar, sobre a emoção das pessoas. Lembro de ter recebido ligações. É, eu estava lá. Através de um celular, ouvi Último Romance. Lembro de ter que segurar o choro, porque os meus emocionados suspiros atrapalhariam a audição daquele momento absolutamente único. Ali. Ao vivo. No tal show com clima de despedida, que todos torciam para que passasse logo, eu me fiz presente. Mesmo há quilômetros de distância, eu compartilhei as lágrimas emocionadas de milhares de pessoas.

Se eles vão continuar? Não sei. Pra falar a verdade, acho que nem eles sabem. Se tudo acabou de verdade... O que me entristece mais é o fato de saber que não haverá um futuro marcado pelos shows. É saber que eu não vou poder ouvi-los ao vivo com meus futuros amigos de faculdade, é saber que a única lembrança que eu vou ter de Último Romance é a de ter que me abraçar, tendo como única companhia as minhas lágrimas que cismam em escapar durante essa música. Como se quisessem me fazer companhia mesmo. Saindo de dentro de mim, talvez do meu próprio coração, as lágrimas se manifestam como se quisessem dizer que estão lá, comigo. De pensamentos longínguos e de companhias inexistentes foram feitos os shows que eu fui. Se não acabou... Significa que ainda há esperanças. De dividir tantos momentos recheados de emoção com pessoas queridas, com meus abraçadores oficiais que sempre me acompanham nos covers. Com a melhor amiga do mundo, que terá que me acompanhar no próximo tributo a eles. Precisamos disso, passamos por muito. Somos duas pessoas cansadas e devemos a nós mesmas a atitude de alinhar as nossas vozes em uma só, perdida no meio de tantas outras, mas que traz consigo um mundo de sentimentos. Que cumpra-se o “não solta da minha mão”, que haja os abraços demorados e o compartilhamento de lágrimas. Que a nossa sensação de companheirismo, pra dividir e misturar a dor de uma com a emoção da outra, lave nossa alma.


Eles cantam o amor. O amor de um casal que está prestes a morrer, numa Conversa de Botas Batidas. O amor não correspondido, ícone de tantas e tantas letras e o único conhecido por mim. O amor pleno e eterno em Último Romance, que vai ser, com absoluta certeza, a música que vai tocar no meu casamento. (Podem me chamar de brega, eu não ligo. Lasquem-se, é a minha música preferida do mundo inteiro. hahaha) O amor destinado a um alguém desconhecido, a parte mais carente desse sentimento, que se faz demonstrar num pedido de clemência em De Onde Vem a Calma. É de mágica que eles dobram a vida em flor. A flor presente em tantas canções, em tantas vozes. A flor jogada pela platéia que enfeitou a guitarra daquele que usou a flor para metaforizar tantas desilusões, desamores e paixões.



Mas as lembranças ficam. Do gingado do Marcelo em Paquetá, das manias de bêbado, imitações de robô e dos gritos do Amarante em Vencedor, das dancinhas de ambos nos solos de Condicional e Cara Estranho, do gesto do Marcelo de cantar com os braços abertos, da seriedade do Bruno, da concentração do Barba, da maneira séria e quase chorosa com que o Amarante canta Sentimental, dos olhares perdidos do Gabriel Bubu, do público. Do público que canta tudo, de milhares de pessoas tão declaradamente apaixonadas, de braços pra cima, jogando confetes e serpentinas, agindo do mesmo jeito em cada música, como num ritual ensaiado que ninguém verdadeiramente ensaiou. A vontade que dá é a mesma em todo mundo. Um simples “aaaah, ah ah ahhh” no final de Além do Que Se Vê é cantado com tamanha paixão que se assemelha a um poema dos mais rebuscados. É a música que rege, como se os que estão ali tirassem aqueles gritos do mais íntimo de si mesmos. É o grito que sai do coração, grito de mágoa, grito de dor, grito de felicidade, grito de musicalidade. É o pedido da platéia no final do show, entoando um “aah... Los Hermanos vai voltar... Los Hermanos vai voltar... Los Hermanos vai voltar... aaahh...”.






“Além do que se vê” não tem introdução musical. Há apenas a contagem dos compassos antes de surgir a voz de Marcelo Camelo, baixinha: “Moça / olha só o que eu te escrevi / é preciso força pra sonhar e perceber / que a estrada vai além do que se vê”. O barulho do entusiasmo pela entrada da banda no palco ainda não havia se dissipado quando o vocalista caminhou até o microfone e pronunciou a primeira sílaba da música: “Mo...”, sendo engolido por um coral monstruoso de 5 mil jovens que urravam letra por letra com uma vivacidade de torcida uniformizada, antes de explodir em delírio durante o intermezzo instrumental inaudível. Eles explodiram NA PRIMEIRA SÍLABA! (...)
E faz mosh com passinhos de carnaval. E joga serpentina no palco e confete em si mesmo. O processo é obviamente fora do controle da banda – então só restou entregar o manche para o público de vez. E há quatro caras lá no palco, mais olhando do que qualquer outra coisa. Caras magros, frágeis, com uns ternos não muito bem cortados. E o público cuidando deles.
(Trechos da matéria “Boa Noite e Boa Sorte” da revista Bizz, tratando do recesso.)







Diz, quem é maior que o amor? Me abraça forte agora, que é chegada a nossa hora. Vem, vamos além. Vão dizer que a vida é passageira, sem notar que a nossa estrela vai cair.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

tô atrasada no conteúdo e tô aproveitando essa maré de solidão que consegue ser ainda mais intensa do que a maré constante na qual todos os dias da minha efêmera vida já se incluem pra devorar devorar devorar devorar devorar devorar devorar devorar livros de história.

(ok, é um post no mínimo incomum, mas eu me permito escrever uma frase enorme e sem vírgula, dá licença? por hoje, isso me basta.)

mentira, isso pouco me basta. acho que tudo me basta. ou nada. talvez.
que saco. alguém me dá algum livro do Caio, por gentileza?

quarta-feira, 15 de julho de 2009

(re)começo?

Quando você chegar, que seja sem permissão, sem anúncios, sem diálogos, sem entrada principal. Entre pelos fundos, pela chaminé, pule o muro, pela porta lateral, pela janela, sem que eu perceba, apenas entre. Inesperadamente. Assim, surpreendentemente. E que seja pra ficar. Não me traga flores nem bombons, embora eu goste muito, porque seria clichê demais. Traga-me um cartão feito a mão, com algumas mentiras bonitas e bobas pra eu acreditar, mas mentiras que tenham a decência de uma mínima verdade. Conte-me histórias, suas histórias, e me deixe te conhecer. Quando você chegar, amor, eu espero que o amor não seja mais assim tão fácil. Tão rápido e tão hipócrita. Egoísta e exigente. E que você me presenteie a cada dia com certezas, sem receitas prontas, rotina e monotonia. E eu correrei até o fim do mundo para não ver o mundo acabar e ficar mais alguns minutos com você nos seus braços. Então segure forte a minha mão e prometa-me que não vai soltá-la nunca, tá?

Não seja tão previsível quanto todos. Não gosto de alma com leitura fácil, não gosto de praticidade e atitudes esperadas e prováveis. Gosto da descoberta, gosto de bisbilhotar, gosto de me embasbacar. Surpreenda-me, amor. Que a sua chegada faça meu coração pular de alegria. Faça-me perder a respiração ao te ver passar, suar as mãos quando as tuas encontrarem, sentir o vermelho das bochechas chegar, ver a alma se perder pelos caminhos que me levam a você. Faça-me ter paixão. Sentimentos puros. Quero sentir. Preciso dessa sensação. Traga-me o abandono. O abandono das mentiras, da dor, dos desencantos, das lágrimas, do adeus ao “para sempre”. Traga-me a palavra que faltava para a canção do amor próprio que há muito eu compus.

Exija de mim a minha melhor parte, amor. Aquela que ninguém jamais viu. A parte que foi reservada especialmente para sua chegada. Está aqui intocada e pronta para surgir. Comande a minha alegria, o meu sorriso, os meus olhos. Seja meu. Queira a minha leveza e a minha paz de espírito. Receba também os meus defeitos, amor, pois não sou perfeita. Queira o meu lado direito não fotogênico e cheio de manchas. Goste dele. Queira meu sorriso não alinhado, porém encantador. Queira as palavras escritas pelas minhas suaves mãos. Aceite a minha preguiça aos domingos, a minha gula por chocolate, a minha falta de tempo e de humor fixo. Quando você chegar, a lua vai sorrir tão mais bonita. Quando você chegar, o sol já vai ter iluminado nosso dia. E quando isso acontecer, amor, permita-me te amar. Permita-me te abraçar, te envolver e te encantar. Deixe-me ser parte de você.

Quando você encontrar a porta, amor, não bata. Quem sabe ela já se encontre aberta.




P.S.: Não, esse texto não é meu. Tomei a liberdade de postar essas palavras aqui, já que todos hão de convir que são lindíssimas e que combinam absurdamente comigo. Quem escreveu? Drummond? Que nada, a escritora é alguém de quem eu morro de saudades de dividir uma pipoca. Sempre guardo as mais salgadas pra ela, tanto que os pedidos nem são mais necessários, já sei do que ela gosta. Ela me lê com uma facilidade imensa. Talvez com mais facilidade que todos os outros. E eu me vejo em tantos escritos dela que é impossível não pensar que haja alguma força osmótica que compartilhe sensações entre duas amigas que, de tão amigas, se julgam irmãs. :]