terça-feira, 13 de outubro de 2009

Desenho em sépia

Ah, os fins de tarde de um feriado. É estranho andar pelas ruas de um bairro calmo depois de tanto tempo de correria. As sombras se espreguiçam enquanto famílias se reúnem nas calçadas, a tarde parece não querer ir embora. Os ares de interior são trazidos pela moto do gás que passa com seu chocalhinho irritante, pelo bolero ouvido pelo grupo de senhores saudosos dos tempos passados, pelas crianças jogando bola na praça. Passo por ali como quem é transportada de uma dimensão cheia de engarrafamentos e prédios altíssimos para uma tarde qualquer dos tempos da minha infância, ou mesmo da infância das gerações passadas. Não podia me ver ali, mas tenho certeza de que o sol iluminava meus olhos, cabelos e mãos de maneira diferente.

Até que apareceu aquela casa. Hoje é uma empresa qualquer, uma fachada comercial praticamente irreconhecível, mas há poucos anos era o lugar pra onde eu me dirigia em praticamente todas essas tardes preguiçosas. Fazíamos música e os pássaros quase sempre nos acompanhavam. Parei e olhei pelo pequeno espaço lateral do portão como fazia antigamente, pra ver se havia algum aluno e tocar a campainha sem atrapalhar a peça que por ventura estivesse sendo tocada. Não havia aluno algum, pessoa alguma, música alguma. Só nas reminiscências, que guardam tudo com uma precisão incrível.

Saí daquela rua tão leve que cheguei a temer ser levada por algum vento matreiro que resolvesse aparecer pra dissipar meus pensamentos. Enquanto isso, meus passos me levavam a um lugar qualquer, alvo da resolução de algumas burocracias relativas à minha Vida Fora Dos Feriados. “Tem que aproveitar o tempo livre”, todos sempre me dizem. E é verdade. Aproveitei pra rever um lugar que não via há tempos, senti a pouca luz do Rei Maior me iluminando antes de se despedir de nós e ir rumo a mais um expediente de energia direcionado a outro lugar. Pra mim, poder presenciar esse momento é um privilégio. Ar condicionado, lâmpada fluorescente e sala fechada me roubam os fins de tarde todos os dias. Quando saio, sempre é noite, e a sensação de que falta um pedaço do meu dia não me abandona de jeito nenhum.

Depois de resolver as pendências, fiz questão de passar por alguns livros. Li sinopses, comparei preços e até tive a pretensão de juntar alguns pra medir o espaço que ocupariam na minha futura estante. E, assim, despedi-me de um raro feriado: medindo os espaços que objetos, emoções e idéias ocuparão na minha vida de hoje em diante. Amanhã o meu mundo volta ao normal, recheado de ônibus lotados, braços cheios de livros, sons de buzinas e a boa e velha pressa, sempre constante.

domingo, 11 de outubro de 2009

Here comes the sun, little darling.

Me sinto querida quando levanto todos os dias e tomo café com o melhor pai do mundo.

Me sinto querida quando atendo àquela ligação que ocorre religiosamente todos os dias e falo sobre a minha rotina com a melhor mãe do mundo.

Me sinto querida quando sei que sempre vou ter aquela amiga-irmã mais incrível do mundo que me conhece ao ponto de adivinhar meus pensamentos e que sabe que ocupa um dos lugares mais lindos da minha vida.

Me sinto querida quando estou na biblioteca do cursinho, imersa em livros, e o tiozinho do corredor entra lá só pra falar comigo, perguntar como eu tô e continuar o seu trabalho.

Me sinto querida quando recebo algum tipo de mensagem de alguém com quem eu não falo há muito tempo, com uma simples pergunta e uma simples afirmação: “ei, você tá bem? saudades, adoro você.”

Me sinto querida quando posso escrever pra outra amiga-irmã, aquela da risada engraçada, dizendo que a amo incondicionalmente, e quando escuto as nossas gravações de tantas tardes simples e incríveis.

Me sinto querida quando estou andando pelo corredor levando um monte de livros e aquele professor de História que tanto me fez crescer e a quem eu tanto admiro me faz um carinho respeitoso ou um aceno de cabeça, me chama pelo nome ou me trata por “filha”.

Me sinto querida ao ver que aquela minha outra amiga-irmã, a que me fez gostar de sushi e tem um dos melhores abraços do mundo, sempre sabe o que dizer pra me fazer ficar melhor em qualquer situação.

Me sinto querida quando o professor de Literatura olha pra mim ao perguntar se alguém escreve poemas e diz: “aquela ali, eu sei que escreve”.

Me sinto querida quando lembro daqueles dias tão distantes em que ganhei meu chocolate preferido na páscoa e virei as madrugadas de carnaval dando prejuízos à tim.

Me sinto querida ao constatar que algumas pessoas que eu nem conheço fora do mundo do orkut têm um apreço tão grande por mim.

Me sinto querida quando releio as minhas cartas, sejam as recebidas ou os rascunhos das enviadas (ou não), e lembro do significado que cada uma daquelas palavras traz consigo.

Me sinto querida quando passo dias e dias pensando em algum presente pra alguma pessoa que me faz sentir querida, quando esse presente é dado e quando eu recebo um grande abraço de agradecimento e tenho a certeza de que acertei na escolha (tanto do presente quanto da pessoa).

Me sinto querida quando vejo algumas palavras de carinho inesperadas que aparecem numa simples página virtual.

Me sinto querida quando o professor de Biologia diz que existem pessoas que marcam a vida da gente e que eu sou uma delas.

Me sinto querida quando os meus amigos elogiam a minha voz, mesmo quando está desafinada.

Me sinto querida quando vejo que o meu gato está esperando ansiosamente pela minha chegada, e quando ele fica ao meu lado o tempo inteiro e olha pra mim como quem diz um simples “gosto de você”.

Me sinto querida quando alguém diz que lembrou de mim ao ouvir uma música de que eu gosto muito.

Me sinto querida quando posso sentir lágrimas de felicidade escorrendo pelo meu rosto ao lembrar de todas essas pequenas manifestações de carinho que muitas vezes são distribuídas sem perceber e que me fazem sentir tão leve quanto um pensamento bom.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Incontinência verbal, palavras atrasadas e querenças de um novo ano.

Pensei em fazer um pedido, era meu aniversário. 
Mas não tinha nada para pedir. As coisas vivas, pensei, as coisas vivas não precisam pedir.
Eu estava ali, onde eu deveria estar. Inteiro. Como uma gota de mercúrio.
(Caio Fernando Abreu)


Resolvi não fazer um texto de aniversário este ano. Na verdade, não chegou a ser uma resolução... Talvez tenha sido mais uma constatação simplória devido à falta de tempo e à economia de palavras que eu mesma tinha me prometido que faria em vários aspectos. Então, que aconteça um texto de pós-aniversário. Aliás... Só um ou dois parágrafos. Texto não, que texto é muito longo e o sono é grande e o dia amanhã é cansativo. (Dia cansativo, redundância, pff.)

Sabe o que eu quero de mim? Quero mais eu. Mais livros, mais espaço, mais músicas novas. Que, no ano que está chegando, eu possa ter uma estante nova pra acomodar meus novos conhecimentos e novos espaços, bem grandes e bem aconchegantes, pra acomodar novas pessoas especiais que estão chegando, seja pra compartilhar um lugar com os que permanecem ou mesmo pra ocupar o lugar dos que quiseram ir. Quero ainda mais força pra não me deixar abater pelos muitos problemas que insistem em querer me derrubar. Quero que mostrem que eu estou totalmente errada quando digo que não tenho coração até que me provem o contrário. Que 2010 traga essa prova contrária. Quero ter saudades da minha rotina deste ano, quero ter saudades dos meus professores tão queridos e das pessoas que, hoje, estão comigo todos os dias e que voarão para outras paisagens. Quero novos livros, quero viajar, quero aprender piano. Quero me enganar positivamente, quero me surpreender e quero ser um pouquinho feliz. Nem precisa ser muito não, é só pra vida ficar um tiquinho mais colorida por si só, sem que eu precise fazer esforços pra ver as cores que nem sempre existem.

No mais, pra não me exceder (acho que já virou um texto... ai menina, se controla), melhor mesmo é deixar uma frase daquele que vai me acompanhar com suas palavras pelo resto desta noite solitária de sexta.

"Colei aquele 'eu amo você' no espelho. É pra mim mesmo."

P.S.: é, também é do Caio.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Da falta de tempo e dos escritos antigos.

Tenho permissão para morrer de amor de vez em quando
E falo, e choro, e canto
Ouço músicas significativas e escrevo poemas
Penso: e agora? e a cor? e a luz?
Morro em mim enquanto tudo foge
A noite que me engole, solitária companheira
Depois que se esvai, leva tudo com ela
Os poemas nunca lidos, rasgados
As músicas, escondidas num canto obscuro de memória
As palavras correm como se nunca tivessem existido
O dia já se apresenta como um acalento prometido

Pronto.
A permissão acabou, é hora de ser forte.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Por não estarem distraídos

Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria e peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque - a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras - e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. Como eles admiravam estarem juntos!

Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos.

(In "Para não esquecer", Lispector)

terça-feira, 29 de setembro de 2009



Pois é, a bruxa tá solta.

terça-feira, 8 de setembro de 2009


Suba os degraus, dê asas à música.

domingo, 6 de setembro de 2009

Cacos.

A noite de sábado seguia, alegre. O céu estrelado era convidativo, mas não conseguia atingi-los completamente. Um jardim de uma praça qualquer nas proximidades do escritório, escolhido para um descanso pós-expediente, parecia o cenário ideal. Bicicletas, livros, violões e bancos de madeira acompanhavam a trajetória daqueles dois. Estavam ali, sentados na grama, negando tudo o que aquele lugar oferecia, incluindo a alegria da noite que avançava. Dois colegas de rotina, de corredores, de cafezinhos. Duas porções de cacos de porcelana, restos de algo bonito em outros tempos, que, mesmo sabendo que a recuperação total nunca seria possível, ansiavam por um método revolucionário qualquer que os fizesse voltar ao estágio anterior às inúmeras quebras.

Ele bebia. Não por questão de inflar seu ego perante outrem, mas por estar acostumado à doce companhia do álcool e por não ver nada de mal em beber um pouco quando se tem vontade. Ela também bebia. Não por influência alheia, mas por puro e simples escapismo. Que há de mal em usar de artifícios para aliviar os problemas terrenos, desde que não se exagere e não se tenha a lucidez completamente perdida? Os dois concordavam: nada.

E tudo. Concordavam em praticamente tudo. E a pequena garrafa de vodka ali, concordando com eles. Sobre as questões existenciais e sobre as tentativas de exercer algum tipo de arte que faça desse mundo algo menos hostil. Naquela noite de sábado, os dois conseguiam brilhar. Segundo alguns, tinham luz própria. Sempre muito admirados pelos amigos. Sempre muito elogiados (mesmo com uma leviandade escancarada) pelos falsos colegas.

Ela já fazia declarações menos calculadas. Chegou-se ao assunto mais delicado: a existência (ou não) do Amor. Ele, por estar mais acostumado aos efeitos que a bebida causava, percebia que ela já estava ligeiramente alterada. Resolveu, por si, parar. Continuou a ouvi-la soltando dores de outros amores e falou daquela outra que o transformara em tal amontoado de escombros. Derramou o que havia no âmago de si sobre aquela velha circunstância, que há muito saíra de seus dias. Ela, de falante compulsiva, passou a ser ouvinte exemplarmente atenta. Talvez fosse hora de um teste.
- Quer saber? Vou ligar pra ela. Preciso falar o que tá preso na minha garganta.
- Cala a boca! Você tá aqui comigo, não vai ligar pra ninguém. Se eu conseguir que uma pessoa esteja em minha companhia sem pensar em mais ninguém pelo menos uma vez na vida, já me dou por satisfeita!
“Ela é intensa mesmo, mas acabou de demonstrar sua fraqueza”, pensou, rindo por dentro. “Talvez seja o álcool, talvez sejam os próprios cacos, despertados de seu silêncio sepulcral.”

O tempo passava arrastado, as estrelas sentiam inveja do brilho daquelas palavras que jorravam pela grama. Alguns existencialismos mais tarde, ela demonstrava sonolência. Acabou dormindo nos braços dele, que só então visualizava com mais clareza os tênues traços que se manifestavam naquela mulher tão independente, tão competente, tão segura de si. Um leão, que arranca as próprias entranhas para livrar-se de um sofrimento qualquer, se preciso for. Mas que ali, imersa nas trevas do que já era madrugada, reluzia como um filhote inofensivo que não pedia nada além de atenção e de carinho.

Levou-a até sua casa. Assegurando-se de que estava tudo bem e deixando claro para a família dela que a sonolência se devia muito mais ao cansaço do que à bebida propriamente dita, saiu. Ganhava distância e perdia luz, conforme os ponteiros do relógio caminhavam.

No dia seguinte, levantou-se no horário habitual e ocultou seu brilho na costumeira máscara de regras sociais. A mesma rotina, os mesmos corredores, os mesmos cafezinhos. Mas ela não estava lá. Provavelmente, dormira mais que o habitual. Com um ar de desinteresse, perguntou à melhor amiga dela se estava tudo em ordem. Sim, estava. Na mais perfeita ordem, só houvera um pequeno atraso. Deveria estar a caminho. Como sempre, eficiente e responsável. Ele perdia-se em indagações sobre a noite anterior, será que ela lembraria de tudo? A mesma amiga, depois de observar longamente a feição dele, tomou coragem e perguntou:
- Tem alguma coisa te preocupando? Tá com um ar pensativo.
- Não, não. Nada.

E sorriu. Assim, de canto de boca, como quem descobre a solução para um quebra-cabeças feito de cacos de porcelana.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Uma pequena conclusão:

As minhas anotações de outrora já não fazem mais sentido.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Das questões da vida.

MOTE

Quem ora soubesse
onde o Amor nasce,
que o semeasse!

VOLTAS (GLOSA)

D'amor e seus danos
me fiz lavrador
semeava amor
e colhia enganos;
não vi, em meus anos
homem que apanhasse
o que semeasse
[...]
Com quanto perdi,
trabalhava em vão;
se semeei grão
grande dor colhi.
Amor nunca vi
que muito durasse,
que não magoasse.


Questão 54: Do ponto de vista da temática desenvolvida no poema, pode-se afirmar que:
a) "Quem semeia ventos, colhe tempestades" é um provérbio que resume a ideia principal do poema de Camões.
b) o fato de que aquilo que se semeia é o oposto daquilo que se colhe está ligado ao desconcerto do mundo.
c) as metáforas agrícolas ligam o poema aos temas bucólicos, que foram retomados pelo Arcadismo mais tarde.
d) a ideia principal é a de que é preciso aproveitar o momento presente já que inevitavelmente colheremos sofrimentos.
e) o tema do poema é que o amor não existe.


Enquanto isso, na conferência do gabarito...

- Como assim?! Não acredito que não é o item E!
- Tu marcou o E? Eu fiquei em dúvida entre o E e o B.
- Pois é, de certa forma eu também pensei no B. Mas é ÓBVIO que é o E, pôxa!
- No gabarito diz B.
- Mas o amor não existe, Lidiane.
- Não confunda sua vida sentimental com a prova, flor.
- Hahaha, preciso me lembrar disso. *suspiro* Hunf. Mas pelo menos a questão eu queria ter ganho.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Ao som de Marisa Monte.

Não sei mais. Já soube, já quis saber, já me importei. O fato de continuar me importando às vezes só me mostra o quanto eu ainda consigo ser ingênua. Logo eu, tão forte, sempre aguentando calada tanta barra... Mas, do nada, vem aquela vontade incontrolável de chorar. Assim, no meio da rua, sem motivo aparente. Basta uma faísca de memória, um fato que passa de relance que te passe algum significado. Aí pronto. A roda gira e gira e gira e você não sabe por que entrou nela e muito menos como sair. A tontura te domina e a única coisa que você deseja é voltar pra sua casa, pra sua rotina medíocre, pra sua vida normalzinha, pras suas atitudes que se encontram Dentro Dos Parâmetros De Segurança.

Aí dá aquela vontade de sair, de reencontrar velhos amigos, de conhecer novos, de dançar ao som daquelas músicas mais significativas. Mas isso não pode, é contra aquela frase tão verdadeira que é dita com tanta freqüência: Tô sem tempo, tô cansada.

Que fazer, então? Alimentar a alma, já que os próprios olhos estão cansados de brilhar enquanto nada verdadeiramente vêem. O fato de ser-ninguém até que te dá certa liberdade pra esquecer o mundo e cuidar de si um pouco. O fato de ser-ninguém faz com que você tenha vontade de ser verdadeiramente Alguém, assim, com letra maiúscula, nem que seja só pra você mesma. Novos livros, o máximo de consumismo que eu me permito ter. E vem Clarice, e vem Caio, e vêm assuntos históricos, e vem Fernando Sabino, e vem Anthony Burgess, e vem Chico Buarque.

Aí dá aquela vontade de parar tudo o que se está fazendo e mergulhar nessas palavras tão densas, que te prendem a um mundo que não é o seu. Perder-se nas palavras alheias é uma ótima maneira de driblar um pouco o vazio que te engole.

Mas não posso, não devo. Se existe um objetivo, é ele que deve nortear o meu caminho e os meus pensamentos. O resto é resto. Ninguém é feliz com resto. Pensando exatamente nisso, a feminilidade exala nos tons e nas cores que te fazem ficar mais leve. E vem a mudança nos cabelos, os cortes, o prender diferente, a fivela no lugar estratégico, a nova arrumação e o novo resultado. E vêm as unhas, vermelhas, de um sangue que insiste em existir e em correr dilacerante. E vem o sorriso, mesmo aqueles meio tristes, de satisfação consigo mesma. A feminilidade, desde que sem exageros, transforma o que era resto em algo passível de admiração.

E, usando de sorrisos como esses, a vida vai passando. O tempo vai passando, as memórias vão-se apagando. Tal qual pétala de flor guardada dentro de livro, que, ao secar, tem o seu perfume arrancado de si e transferido para o papel.

Eis a pergunta: O que me importa?
Não sei mais.
De flor, agora sou apenas pétala. Estou presa no livro da minha própria Vida, deleitando-me enquanto posso com o aroma do meu próprio perfume, sem saber até quando ele vai existir em mim.


segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Domingo.

Acordou cedo, como de costume. Estudou um pouco, tocou violão, viu trechos de documentários. Saiu para almoçar e viu um saco plástico voando a uma altura imensa. Ele parecia dançar no ar. Ficou olhando aquilo em contraste com o azul tão límpido do céu até o dançarino branco sair do seu raio de visão. Andou mais rápido, que o sol escaldava.

Algum tempo depois, se via parada em frente a um cesto enorme cheio de bichos de pelúcia em um hipermercado qualquer. Unicórnios, ursos, macacos, tigres, cavalos. Alguém comentou sobre o olhar de felicidade que algumas pessoas lançam quando vêem bichos de pelúcia. Ficou imaginando o seu próprio olhar naquela situação. Devia estar radiante. Pensou em comprar um daqueles, pensou na companhia que eles fariam durante a noite. Mas pensou também que, para se ter um daqueles, teria que pensar em alguém todas as vezes que visse o cavalo, ou o unicórnio, ou o urso. E não haveria lembrança nenhuma a não ser a daquela tarde de domingo e daquela pessoa falando sobre os olhares. Não, não se podia adqüirir um tão facilmente assim. Chegou à conclusão que essas coisas não foram feitas para serem compradas e, sim, para serem presenteadas.

Uma leve melancolia estabeleceu-se ali. Pegou um tigre por quem se afeiçoara instantaneamente. Não era muito grande nem muito caro. Também não era o mais cobiçado. Era só diferente dos outros. Olhou demoradamente para o tigre e teve de soltá-lo ali, bem em cima da pilha de bichos. Sem despedir-se, saiu pensando não ser feita para tais coisas, para tais presentes, para tais brilhos no olhar.

Chegou em casa acometida de uma saudade avassaladora. Era tanta e tão intensa que quase se podia ver, ouvir e tocar. Era a barragem de um rio, não agüentando a pressão das águas e fragmentando-se, inundando tudo num raio de infindáveis extensões de terra. Tentou voltar a estudar, não conseguiu. Tomou um banho demorado, cuidou dos cabelos, viu um filme.

À noitinha, recebeu uma ligação. Soube que uma pessoa espalhara veneno na rua em que sua mãe morava antigamente, matando oito gatos da vizinhança. Oito famílias foram despedaçadas. Entre os que morreram estava o gato de sua própria mãe, que ela presenteara para que sua genitora não se sentisse sozinha ao levar a nova vida. Aquele gato tão carinhoso, que doava um afeto tão gratuito, mas que teve de ser deixado aos cuidados de uma vizinha quando se deu a mudança para outros ares. Foi-se também o gato de uma criança por quem ela tem um carinho enorme. O coração daquela loirinha de olhos azuis faiscantes, já frágil pela leucemia, foi terrivelmente abalado pela perda de um dos seus únicos companheiros. Depois do acontecido, ela teve crises graves e passou bem perto da Morte. Graças a Deus, passou apenas perto.

Foi levada a pensar em como seria sua vida sem uma das pessoas que mais ama. Sentiu dor, sentiu vazio, lembrou de muitas situações. Mas esse assunto trouxe alívio também, por saber que essa pessoa continuaria ali e ainda compartilharia inúmeros sorrisos com ela.

Decidiu dormir, que estava precisando. Não conseguia. Acometida pela saudade novamente, torcia para que o feriado acabasse logo. A loucura da rotina apaziguava um pouco esse fluxo de sentimentos estranhos. Mas, ao invés do sonho, continuava vindo saudade. Pensou nos bichos de pelúcia e pensou no que a sua vida vinha reservando para ela ao longo dos últimos tempos. Imaginou o sorriso daquelas crianças empobrecidas, ao ganhar um brinquedo usado por outros que não o valorizam tanto. Elas cuidam com tanto zelo e com tanto amor daquilo que, para as outras, não tem o mínimo significado... Ela sabe como é esse sentimento. Mas agora não passava de uma teoria. No momento, se punha no lugar daquelas crianças que não têm sequer os tais brinquedos usados. Ficam felizes apenas em observar o comportamento das que podem espalhar o amor que têm dentro de si. Pediu a Deus que lhe desse sono e que lhe desse força para continuar. Ambos os pedidos foram atendidos. Apesar das poucas horas de sono, levantou-se no horário habitual, com uma vontade incorrigível de estar linda e de rir até as bochechas doerem.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Os dragões não conhecem o paraíso.

Tenho um dragão que mora comigo.

Não, isso não é verdade.

Não tenho nenhum dragão. E, ainda que tivesse, ele não moraria comigo nem com ninguém. Para os dragões, nada mais inconcebível que dividir seu espaço - seja com outro dragão, seja com uma pessoa banal feito eu. Ou invulgar, como imagino que os outros devam ser. Eles são solitários, os dragões. Quase tão solitários quanto eu me encontrei, sozinho neste apartamento, depois de sua partida. Digo quase porque, durante aquele tempo em que ele esteve comigo, alimentei a ilusão de que meu isolamento para sempre tinha acabado. E digo ilusão porque, outro dia, numa dessas manhãs áridas da ausência dele, felizmente cada vez menos freqüentes (a aridez, não a ausência), pensei assim: Os homens precisam da ilusão do amor da mesma forma que precisam da ilusão de Deus. Da ilusão do amor para não afundarem no poço horrível da solidão absoluta; da ilusão de Deus, para não se perderem no caos da desordem sem nexo.

Isso me pareceu gradiloqüente e sábio como uma idéia que não fosse minha, tão estúpidos costumam ser meus pensamentos. E tomei nota rapidamente no guardanapo do bar onde estava. Escrevi também mais alguma coisa que ficou manchada pelo café. Até hoje não consigo decifrá-la. Ou tenho medo da minha - felizmente indecifrável - lucidez daquele dia.

Estou me confundindo, estou me dispersando.

O guardanapo, a frase, a mancha, o medo - isso deve vir mais tarde. Todas essas coisas de que falo agora - as particularidades dos dragões, a banalidade das pessoas como eu -, só descobri depois. Aos poucos, na ausência dele, enquanto tentava compreendê-lo. Cada vez menos para que minha compreensão fosse sedutora, e cada vez mais para que essa compreensão ajudasse a mim mesmo a. Não sei dizer. Quando penso desse jeito, enumero proposições como: a ser uma pessoa menos banal, a ser mais forte, mais seguro, mais sereno, mais feliz, a navegar com um mínimo de dor. Essas coisas todas que decidimos fazer ou nos tornar quando algo que supúnhamos grande acaba, e não há nada a ser feito a não ser continuar vivendo.

Então, que seja doce. Repito todas as manhãs, ao abrir as janelas para deixar entrar o sol ou o cinza dos dias, bem assim: que seja doce. Quando há sol, e esse sol bate na minha cara amassada do sono ou da insônia, contemplando as partículas de poeira soltas no ar, feito um pequeno universo, repito sete vezes para dar sorte: que seja doce que seja doce que seja doce e assim por diante. Mas, se alguém me perguntasse o que deverá ser doce, talvez não saiba responder. Tudo é tão vago como se não fosse nada.

Ninguém perguntará coisa alguma, penso. Depois continuo a contar para mim mesmo, como se fosse ao mesmo tempo o velho que conta e a criança que escuta, sentado no colo de mim. Foi essa a imagem que me veio hoje pela manhã quando, ao abrir a janela, decidi que não suportaria passar mais um dia sem contar esta história de dragões. Consegui evitá-la até o meio da tarde. Dói, um pouco. Não mais uma ferida recente, apenas um pequeno espinho de rosa, coisa assim, que você tenta arrancar da palma da mão com a ponta de uma agulha. Mas, se você não consegue extirpá-lo, o pequeno espinho pode deixar de ser uma pequena dor para se transformar numa grande chaga.

Assim, agora, estou aqui. Ponta fina de agulha equilibrada entre os dedos da mão direita, pairando sobre a palma aberta da mão esquerda. Algumas anotações em volta, tomadas há muito tempo, o guardanapo de papel do bar, com aquelas palavras sábias que não parecem minhas e aquelas outras, manchadas, que não consigo ou não quero ou finjo não poder decifrar.

Ainda não comecei.

Queria tanto saber dizer Era uma vez. Ainda não consigo.

Mas preciso começar de alguma forma. E esta, enfim, sem começar propriamente, assim confuso, disperso, monocórdio, me parece um jeito tão bom ou mau quanto qualquer outro de começar uma história. Principalmente se for uma história de dragões.

Gosto de dizer tenho um dragão que mora comigo, embora não seja verdade. Como eu dizia, um dragão jamais pertence a, nem mora com alguém. Seja uma pessoa banal igual a mim, seja unicórnio, salamandra, harpia, elfo, hamadríade, sereia ou ogro. Duvido que um dragão conviva melhor com esses seres mitológicos, mais semelhantes à natureza dele, do que com um ser humano. Não que sejam insociáveis. Pelo contrário, às vezes um dragão sabe ser gentil e submisso como uma gueixa. Apenas, eles não dividem seus hábitos.

Ninguém é capaz de compreender um dragão. Eles jamais revelam o que sentem. Quem poderia compreender, por exemplo, que logo ao despertar (e isso pode acontecer em qualquer horário, às três ou às onze da noite, já que o dia e a noite deles acontecem para dentro, mas é mais previsível entre sete e nove da manhã, pois essa é a hora dos dragões) sempre batem a cauda três vezes, como se tivessem furiosos, soltando fogo pelas ventas e carbonizando qualquer coisa próxima num raio de mais de cinco metros? Hoje, pondero: talvez seja essa a sua maneira desajeitada de dizer, como costumo dizer agora, ao despertar - que seja doce.

Mas no tempo em que vivia comigo, eu tentava - digamos - adaptá-lo às circunstâncias. Dizia por favor, tente compreender, querido, os vizinhos banais do andar de baixo já reclamaram da sua cauda batendo no chão ontem às quatro da madrugada. O bebê acordou, disseram, não deixou ninguém mais dormir. Além disso, quando você desperta na sala, as plantas ficam todas queimadas pelo seu fogo. E, quanto você desperta no quarto, aquela pilha de livros vira cinzas na minha cabeceira.

Ele não prometia corrigir-se. E eu sei muito bem como tudo isso parece ridículo. Um dragão nunca acha que está errado. Na verdade, jamais está. Tudo que faz, e que pode parecer perigoso, excêntrico ou no mínimo mal-educado para um humano igual a mim, é apenas parte dessa estranha natureza dos dragões. Na manhã, na tarde ou na noite seguintes, quanto ele despertasse outra vez, novamente os vizinhos reclamariam e as prímulas amarelas e as begônias roxas e verdes, e Kafka, Salinger, Pessoa, Clarice e Borges a cada dia ficariam mais esturricados. Até que, naquele apartamento, restássemos eu e ele entre as cinzas. Cinzas são como sedas para um dragão, nunca para um humano, porque a nós lembra destruição e morte, não prazer. Eles trafegam impunes, deliciados, no limiar entre essa zona oculta e a mais mundana. O que não podemos compreender, ou pelo menos aceitar.

Além de tudo: eu não o via. Os dragões são invisíveis, você sabe. Sabe? Eu não sabia. Isso é tão lento, tão delicado de contar - você ainda tem paciência? Certo, muito lógico você querer saber como, afinal, eu tinha tanta certeza da existência dele, se afirmo que não o via. Caso você dissesse isso, ele riria. Se, como os homens e as hienas, os dragões tivessem o dom ambíguo do riso. Você o acharia talvez irônico, mas ele estaria impassível quanto perguntasse assim: mas então você só acredita naquilo que vê? Se você dissesse sim, ele falaria em unicórnios, salamandras, harpias, hamadríades, sereias e ogros. Talvez em fadas também, orixás quem sabe? Ou átomos, buracos negros, anãs brancas, quasars e protozoários. E diria, com aquele ar levemente pedante: "Quem só acredita no visível tem um mundo muito pequeno. Os dragões não cabem nesses pequenos mundos de paredes invioláveis para o que não é visível".

Ele gostava tanto dessas palavras que começam com in - invisível, inviolável, incompreensível -, que querem dizer o contrário do que deveriam. Ele próprio era inteiro o oposto do que deveria ser. A tal ponto que, quando o percebia intratável, para usar uma palavra que ele gostaria, suspeitava-o ao contrário: molhado de carinho. Pensava às vezes em tratá-lo dessa forma, pelo avesso, para que fôssemos mais felizes juntos. Nunca me atrevi. E, agora que se foi, é tarde demais para tentar requintadas harmonias.

Ele cheirava a hortelã e alecrim. Eu acreditava na sua existência por esse cheiro verde de ervas esmagadas dentro das duas palmas das mãos. Havia outros sinais, outros augúrios. Mas quero me deter um pouco nestes, nos cheiros, antes de continuar. Não acredite se alguém, mesmo alguém que não tenha um mundo pequeno, disser que os dragões cheiram a cavalos depois de uma corrida, ou a cachorros das ruas depois da chuva. A quartos fechados, mofo, frutas podres, peixe morto e maresia - nunca foi esse o cheiro dos dragões.

A hortelã e alecrim, eles cheiram. Quando chegava, o apartamento inteiro ficava impregnado desse perfume. Até os vizinhos, aqueles do andar de baixo, perguntavam se eu andava usando incenso ou defumação. Bem, a mulher perguntava. Ela tinha uns olhos azuis inocentes. O marido não dizia nada, sequer me cumprimentava. Acho que pensava que era uma dessas ervas de índio que as pessoas costumam fumar quando moram em apartamentos, ouvindo música muito alto. A mulher dizia que o bebê dormia melhor quando esse cheiro começava a descer pelas escadas, mais forte de tardezinha, e que o bebê sorria, parecendo sonhar. Sem dizer nada, eu sabia que o bebê sonhava com dragões, unicórnios ou salamandras, esse era um jeito do seu mundo ir-se tornando aos poucos mais largo. Mas os bebês costumam esquecer dessas coisas quanto deixam de ser bebês, embora possuam a estranha facilidade de ver dragões - coisa que só os mundos muito largos conseguem.

Eu aprendi o jeito de perceber quando o dragão estava a meu lado. Certa vez, descemos juntos pelo elevador com aquela mulher de olhos-azuis-inocentes e seu bebê, que também tinha olhos-azuis-inocentes. O bebê olhou o tempo todo para onde estava o dragão. Os dragões param sempre do lado esquerdo das pessoas, para conversar direto com o coração. O ar a meu lado ficou leve, de uma coloração vagamente púrpura. Sinal que ele estava feliz. Ele, o dragão, e também o bebê, e eu, e a mulher, e a japonesa que subiu no sexto andar, e um rapaz de barba no terceiro. Sorríamos suaves, meio tolos, descendo juntos pelo elevador numa tarde que lembro de abril - esse é o mês dos dragões - dentro daquele clima de eternidade fluida que apenas os dragões, mas só às vezes, sabem transmitir.

Por situações como essa, eu o amava. E o amo ainda, quem sabe mesmo agora, quem sabe mesmo sem saber direito o significado exato dessa palavra seca - amor. Se não o tempo todo, pelo menos quanto lembro de momentos assim. Infelizmente, raros. A aspereza e avesso parecem ser mais constantes na natureza dos dragões do que a leveza e o direito. Mas queria falar de antes do cheiro. Havia outros sinais, já disse. Vagos, todos eles.

Nos dias que antecediam a sua chegada, eu acordava no meio da noite, o coração disparado. As palmas das mãos suavam frio. Sem saber porque, nas manhãs seguintes, compulsivamente eu começava a comprar flores, limpar a casa, ir ao supermercado e à feira para encher o apartamento de rosas e palmas e morangos daqueles bem gordos e cachos de uvas reluzentes e berinjelas luzidias (os dragões, descobri depois, adoram contemplar berinjelas) que eu mesmo não conseguia comer. Arrumava em pratos, pelos cantos, com flores e velas e fitas, para que os espaços ficassem mais bonitos.

Como uma fome, me dava. Mas uma fome de ver, não de comer. Sentava na sala toda arrumada, tapete escovado, cortinas lavadas, cestas de frutas, vasos de flores - acendia um cigarro e ficava mastigando com os olhos a beleza das coisas limpas, ordenadas, sem conseguir comer nada com a boca, faminto de ver. À medida que a casa ficava mais bonita, eu me tornava cada vez mais feio, mais magro, olheiras fundas, faces encovadas. Porque não conseguia dormir nem comer, à espera dele. Agora, agora vou ser feliz, pensava o tempo todo numa certeza histérica. Até que aquele cheiro de alecrim, de hortelã, começasse a ficar mais forte, para então, um dia, escorregar que nem brisa por baixo da porta e se instalar devagarzinho no corredor de entrada, no sofá da sala, no banheiro, na minha cama. Ele tinha chegado.

Esses ritmos, só descobri aos poucos. Mesmo o cheiro de hortelã e alecrim, descobri que era exatamente esse quando encontrei certas ervas numa barraca de feira. Meu coração disparou, imaginei que ele estivesse por perto. Fui seguindo o cheiro, até me curvar sobre o tabuleiro para perceber: eram dois maços verdes, a hortelã de folhinhas miúdas, o alecrim de hastes compridas com folhas que pareciam espinhos, mas não feriam. Pergunte o nome, o homem disse, eu não esqueci. Por pura vertigem, nos dias seguintes repetia quanto sentia saudade: alecrim hortelã alecrim hortelã alecrim hortelã alecrim.

Antes, antes ainda, o pressentimento de sua visita trazia unicamente ansiedade, taquicardias, aflição, unhas roídas. Não era bom. Eu não conseguia trabalhar, ir ao cinema, ler ou afundar em qualquer outra dessas ocupações banais que as pessoas como eu têm quando vivem. Só conseguia pensar em coisas bonitas para a casa, e em ficar bonito eu mesmo para encontrá-lo. A ansiedade era tanta que eu enfeiava, à medida que os dias passavam. E, quando ele enfim chegava, eu nunca tinha estado tão feio. Os dragões não perdoam a feiúra. Menos ainda a daqueles que honram com sua rara visita.

Depois que ele vinha, o bonito da casa contrastando com o feio do meu corpo, tudo aos poucos começava a desabar. Feito dor, não alegria. Agora agora agora vou ser feliz, eu repetia: agora agora agora. E forçava os olhos pelos cantos de prata esverdeadas, luz fugidia, a ponta em seta de sua cauda pela fresta de alguma porta ou fumaça de suas narinas, sempre mau, e a fumaça, negra. Naqueles dias, enlouquecia cada vez mais, querendo agora já urgente ser feliz. Percebendo minha ânsia, ele tornava-se cada vez mais remoto. Ausentava-se, retirava-se, fingia partir. Rarefazia seu cheiro de ervas até que não passasse de uma suspeita verde no ar. Eu respirava mais fundo, perdia o fôlego no esforço de percebê-lo, dia após dia, enquanto flores e frutas apodreciam nos vasos, nos cestos, nos cantos. Aquelas mosquinhas negras miúdas esvoaçavam em volta delas, agourentas.

Tudo apodrecia mais e mais, sem que eu percebesse, doído do impossível que era tê-lo. Atento somente à minha dor, que apodrecia também, cheirava mal. Então algum dos vizinhos batia à porta para saber se eu tinha morrido e sim, eu queria dizer, estou apodrecendo lentamente, cheirando mal como as pessoas banais ou não cheiram quando morrem, à espera de uma felicidade que não chega nunca. Ele não compreenderia. Eu não compreendia, naqueles dias - você compreende?

Os dragões, já disse, não suportam a feiúra. Ele partia quando aquele cheiro de frutas e flores e, pior que tudo, de emoções apodrecidas tornava-se insuportável. Igual e confundido ao cheiro da minha felicidade que, desta e mais uma vez, ele não trouxera. Dormindo ou acordado, eu recebia sua partida como um súbito soco no peito. Então olhava para cima, para os lados, à procura de Deus ou qualquer coisa assim - hamadríades, arcanjos, nuvens radioativas, demônios que fossem. Nunca os via. Nunca via nada além das paredes de repente tão vazias sem ele.

Só quem já teve um dragão em casa pode saber como essa casa parece deserta depois que ele parte. Dunas, geleiras, estepes. Nunca mais reflexos esverdeados pelos cantos, nem perfume de ervas pelo ar, nunca mais fumaças coloridas ou formas como serpentes espreitando pelas frestas de portas entreabertas. Mais triste: nunca mais nenhuma vontade de ser feliz dentro da gente, mesmo que essa felicidade nos deixe com o coração disparado, mãos úmidas, olhos brilhantes e aquela fome incapaz de engolir qualquer coisa. A não ser o belo, que é de ver, não de mastigar, e por isso mesmo também uma forma de desconforto. No turvo seco de uma casa esvaziada da presença de um dragão, mesmo voltando a comer e a dormir normalmente, como fazem as pessoas banais, você não sabe mais se não seria preferível aquele pântano de antes, cheio de possibilidades - que não aconteciam, mas que importa? - a esta secura de agora. Quando tudo, sem ele, é nada.

Hoje, acho que sei. Um dragão vem e parte para que seu mundo cresça? Pergunto - porque não estou certo - coisas talvez um tanto primárias, como: um dragão vem e parte para que você aprenda a dor de não tê-lo, depois de ter alimentado a ilusão de possuí-lo? E para, quem sabe, que os humanos aprendam a forma de retê-lo, se ele um dia voltar?

Não, não é assim. Isso não é verdade.

Os dragões não permanecem. Os dragões são apenas a anunciação de si próprios. Eles se ensaiam eternamente, jamais estréiam. As cortinas não chegam a se abrir para que entrem em cena. Eles se esboçam e se esfumam no ar, não se definem. O aplauso seria insuportável para eles: a confirmação de que sua inadequação é compreendida e aceita e admirada, e portanto - pelo avesso igual ao direito - incompreendida, rejeitada, desprezada. Os dragões não querem ser aceitos. Eles fogem do paraíso, esse paraíso que nós, as pessoas banais, inventamos - como eu inventava uma beleza de artifícios para esperá-lo e prendê-lo para sempre junto a mim. Os dragões não conhecem o paraíso, onde tudo acontece perfeito e nada dói nem cintila ou ofega, numa eterna monotonia de pacífica falsidade. Seu paraíso é o conflito, nunca a harmonia.

Quando volto a pensar nele, nestas noites em que dei para me debruçar à janela procurando luzes móveis pelo céu, gosto de imaginá-lo voando com suas grandes asas douradas, solto no espaço, em direção a todos os lugares que é lugar nenhum. Essa é sua natureza mais sutil, avessa às prisões paradisíacas que idiotamente eu preparava com armadilhas de flores e frutas e fitas, quando ele vinha. Paraísos artificiais que apodreciam aos poucos, paraíso de eu mesmo - tão banal e sedento - a tolerar todas as suas extravagâncias, o que devia lhe soar ridículo, patético e mesquinho. Agora apenas deslizo, sem excessivas aflições de ser feliz.

As manhãs são boas para acordar dentro delas, beber café, espiar o tempo. Os objetos são bons de olhar para eles, sem muitos sustos, porque são o que são e também nos olham, com olhos que nada pensam. Desde que o mandei embora, para que eu pudesse enfim aprender a grande desilusão do paraíso, é assim que sinto: quase sem sentir.

Resta esta história que conto, você ainda está me ouvindo? Anotações soltas sobre a mesa, cinzeiros cheios, copos vazios e este guardanapo de papel onde anotei frases aparentemente sábias sobre o amor e Deus, com uma frase que tenho medo de decifrar e talvez, afinal, diga apenas qualquer coisa simples feito: nada disso existe.

Nada, nada disso existe.

Então quase vomito e choro e sangro quando penso assim. Mas respiro fundo, esfrego as palmas das mãos, gero energia em mim. Para manter-me vivo, saio à procura de ilusões como o cheiro das ervas ou reflexos esverdeados de escamas pelo apartamento e, ao encontrá-los, mesmo apenas na mente, tornar-me então outra vez capaz de afirmar, como num vício inofensivo: tenho um dragão que mora comigo. E, desse jeito, começar uma nova história que, desta vez sim, seria totalmente verdadeira, mesmo sendo completamente mentira. Fico cansado do amor que sinto, e num enorme esforço que aos poucos se transforma numa espécie de modesta alegria, tarde da noite, sozinho neste apartamento no meio de uma cidade escassa de dragões, repito e repito este meu confuso aprendizado para a criança-eu-mesmo sentada aflita e com frio nos joelhos do sereno velho-eu-mesmo:

- Dorme, só existe o sonho. Dorme, meu filho. Que seja doce.

Não, isso também não é verdade.

(Caio Fernando Abreu)


P.S.: Já que o meu tempo de livre e prazerosa escrita foi totalmente substituído pelas redações formalizadas e pelas fórmulas matemáticas, deixo-vos em boa companhia. Meu conto preferido de um dos meus escritores preferidos. Tenho cá comigo as minhas interpretações sobre quem ou o que é o dragão do conto, mas o tempo tem me roubado de mim. Sendo assim, melhor que cada um tire as próprias conclusões e interprete à sua maneira, uma vez que a beleza do conto se faz exatamente nos distintos pontos de vista.
Beijos e queijos de uma pseudo-escritora sem vida e sem coração. Não sei quando postarei escritos meus novamente. Pode ser amanhã, pode ser ano que vem. Carpe Diem.

domingo, 9 de agosto de 2009

De médico e louco todo mundo tem um pouco.

Ando meio mística. Meio dark, meio rock, pintando as unhas de vermelho e acordando de rímel às 6 da manhã. Nada de violão. Sabe como é, falta de tempo e de coração. Tinta vermelha escorre de mim pelo chão. Mistura-se com o branco de algum outro lugar e vira o róseo. Nem bolchevique nem menchevique. Pra quê escolher se se pode misturar? Pra quê pensar se existe a distração? É tão mais cômodo não agir, não falar, não pensar, não aparecer. Esfinges não foram feitas para a compreensão. Quando se tem uma vida inteira pela frente e os próximos meses decidirão o rumo dos seus próximos anos, qualquer tipo de pensamento que envolva algum extremo desvia o foco. Embassa. Quando a claridade por um lado é impossível, melhor mesmo é ter boa visão. E a minha é excelente.

Ah, cara, tô bem, sabe. Apesar do cansaço exacerbado, da pressão vinda de todos os lados e do medo de falhar mais uma vez, eu tô bem. Quando o seu suor é a única prova de seu esforço, você se aproveita dele pra provar pra si que consegue vencer qualquer coisa. Não, não mata. “Perdi um pedaço. Tem tempo. E nem morri.” Adoro ironias, elas me divertem. Leio contos, canto os tons mais altos que a minha modesta voz pode alcançar, escuto tudo no volume mais alto que os meus ouvidos podem suportar. Porque tô viva, tô aqui, mereço gostar de mim. E se eu vivo nadando contra a correnteza e se quebrar a cara já virou rotina, foda-se. Pelo menos eu tenho braços pra nadar e tenho cara pra quebrar. E ah! Sou mulher sim e falo palavrão sim. Moderadamente, claro, mas quando dá vontade, por que não? Falo por mim e para mim, porque é terapêutico e porque hipocrisias sociais andam me aborrecendo. Me respeito, acima de tudo. Respiro o que está ao meu redor, absorvo o que está ao meu redor, multiplico o que eu vejo e somo o inconsciente às atitudes. Meu codinome é intensidade.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Quando os olhos se ausentam.

Fechou os olhos. Aquele par de luzes castanhas que tanto era admirado pelas pessoas que gostavam dela sumiu do mundo por alguns instantes, é o preço que se paga por um momento de reflexão mais profundo. Quando abriu os olhos novamente, viu escuridão. Era tarde da noite e ela só conseguia visualizar formas difusas. O silêncio era avassalador e ela quis quebrá-lo com alguma coisa. Depois de uma respiração profunda, fechou os olhos novamente. Viu um filme ali. Centenas de cenas, de frases, de sensações, de vozes e de memórias rodopiavam à sua volta. Era um filme ligeiramente doloroso, mas que ainda não escapara completamente das cortinas que se faziam perceber atrás de suas pálpebras. (Mas isso não significava que um sorriso, daqueles de canto de boca, deixasse de surgir em algumas cenas.) Talvez tal história nunca escapasse de sua memória, e tal possibilidade a amedrontava. Aquele fechar de olhos denunciava a sua existência. Demorava a dormir, mesmo sabendo que não haveria mais nada a fazer e que precisava acordar cedo no dia seguinte (ou no mesmo dia, já que a madrugada era alta). Ela não queria ter sido tão dura, mas foi. Ela não queria que muita coisa tivesse acontecido, mas aconteceu. Tudo e nada. Aconteceu. Agora ela entendia que dois extremos podem ter a mesma intensidade. Fechou os olhos novamente. Dessa vez, para um sono profundo e sonhos distantes, onde ela poderia sorrir e alcançar a felicidade com um simples estender de mãos.