sábado, 1 de maio de 2010

Insônia e café forte à meia-noite.

“Penso em você apesar de não sentir sua falta e muito menos sua presença. Penso em você porque sinto um vazio, que eu não sei do quê e nem por quê. Revelo, então, mais uma vez, minha estupidez, já que não é você quem vai me salvar e nem muito menos me catapultar pra uma dimensão mais tranqüila e menos ansiosa de coisas que não têm nome.”
(Caio Fernando Abreu)





E o que fazer quando se quebra todos os conceitos de distância e proximidade? O paradoxo de se estar ao lado, ao alcance de um toque, e ao mesmo tempo ter um abismo separando-nos, o pensamento de se estar distante e poder conversar sempre que preciso... E quando se espera por aquilo que já se sabe que não virá? E quando esse abismo é invisível, não havendo sequer a certeza sobre o fato de ele existir ou não? Os livros lidos e ainda por ler perdem toda e qualquer importância, os dias vindouros não trazem nada além de uma promessa que provavelmente não se cumprirá e de uma certeza de uma espera baseada em histórias passadas que nunca trouxeram resultados. Existiu, existiria, existirá? A insônia após uma ótima noite cercada de amigos incríveis me acompanha. O que ontem era música, hoje é silêncio.

A razão eu desconheço.
Mas um olhar e um abraço demorado poderiam ser suficientes pra dissipar as dúvidas, mudar os rumos da situação, clarear a vida...

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Das cores do silêncio.

Portas, janelas, lençóis
Fios de luz da manhã através do telhado
Dos sóis um só se faz
Um livro na cabeceira
Acompanhante fiel da noite fria anterior
Tradutor cruel daquela fuga interior

(E as mãos, que agora tocam a vida sem dela esperar um sentido,
transitam entre a delicadeza da espera e a desilusão do real)

Sem contrato
Não concreto
Por que a fria superficialidade é sempre mais palpável?
Por que a mútua sentimentalidade é tão inatingível?

(E as mãos, que agora passeiam por novos e inesperados tons,
tentam tirar deles qualquer interpretação que liberte do vazio)

Sem preocupação
Sem graves ações
Resignações
Resta deslizar através dos dias
Mergulhando em son(ho)s e perdendo-se em palavras.

domingo, 21 de março de 2010

A Rosa Desfolhada.


Não sou a melhor, nem a mais charmosa, nem a mais popular, nem a mais bonita. Nunca ocupei um lugar prioritário na vida de ninguém. Só tenho as minhas convicções e as palavras pra usar como suporte, que podem ser minhas ou de outros também. O que vale mesmo é a sustentação, não importando de onde ela vem. Nunca importa mesmo. Posso ser tão silenciosa quanto uma página em branco, mas se algo despertar minha atenção eu costumo me derramar num mar de letras ou de sons. Se a maioria vê filmes da moda e dança ao som de pop music, eu costumo gastar minhas raras tardes chuvosas lendo poesia e tocando alguma música inebriante pra mim mesma, ou mesmo tentando cantar alguma coisa com uma voz fraca, que mal consegue sair em vista de tanto sentimento junto e confuso numa mesma canção. Não, não é nada demais. Tenho mais perguntas que respostas, mas creio que a primordial delas tenha a ver com o fato de passar despercebida, de ser meio transparente e apagada em face de outras que brilham mais que eu. Acho que sou estranha e talvez por isso a minha trilha sonora seja tão repleta de silêncios.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Revés de ampulheta.


Recentemente, achei um caderno que me pertenceu aos 6 anos de idade. Meus olhos castanhos discutíveis captaram desenhos, colagens e uma letra trêmula, que ainda estava aprendendo a se auto-afirmar e a ganhar firmeza. A infância presente em cada uma daquelas páginas fez-me lembrar da sensação de estar num lugar onde tudo parece maior do que você mesma. Quando os pés não alcançam o chão ao sentar numa cadeira muito alta ou quando se precisa ficar na ponta dos dedos para visualizar o que se encontra em cima de um balcão. De repente, uma verdade me atingiu como um raio: Todos nós temos um pouco disso. Longe de tudo, não somos nada além de: Uma criança assustada. Apesar dessa certeza irrefutável, continuo não querendo ser tratada assim. Melhor esconder as inseguranças e os temores em uma manta negra e pesada? Talvez. Até gosto de ter dúvidas.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Último Sorvete.


Mesmo ônibus. Sinal, rua, número de passos. O porteiro, que parece estar de mau-humor mesmo nos dias em que se sente alegre. Para auxiliar seu trabalho, a catraca que emperra e insiste em recusar os cartões de acesso, mesmo no turno correto. Os painéis, nos quais são expostos avisos sobre as aulas do dia, resultados dos simulados, indicações das salas em que ocorrerão aulas extras. O tio do sorvete, atrapalhado, que já derramou uma apetitosa bola de morango no próprio pulso e que já me vendeu sorvetes no limiar do derretimento, responsáveis por tantas trágicas manchas nas roupas. O tio do caixa da cantina, leitor assíduo de Stephen King, que morria de rir sempre que eu pedia uma “goiabinha de chocolate”. A tia da cantina, com seu batom vermelho borrado, e o tio da cantina, que sempre atendeu aos meus pedidos de caprichar no leite condensado da minha salada de frutas.

Hoje, minha despedida declarada. Andei pelos corredores, sentei nos bancos, entrei nas salas que mais foram freqüentadas por mim. Só não tive coragem de voltar à biblioteca, por lembrar de quando estive lá, folheei alguns livros que me foram emprestados e achei, dentro de um deles, um comprovante de devolução assinado por mim. Deixei o papel lá, de lembrança, levando aquele momento como o de despedida ideal. De todo aquele lugar, que até então foi minha segunda casa, e de todos os rostos e vozes que se fizeram presentes durante tanto tempo, eu me despedi com um apego de quem olha para trás a cada passo dado em direção à saída. É estranho ver o carrinho de pipocas sem o tio que parece o Zeca Pagodinho. É estranho ter que dizer adeus aos profissionais, que se tornaram amigos e que foram diretamente responsáveis por uma conquista muito significativa na vida de qualquer um. É estranho ter que dizer adeus aos tantos amigos... Aos que construirão suas vidas através de outras áreas do conhecimento e aos que estão com o gosto amargurado da derrota, esse mesmo gosto que se fez tão presente em mim durante tanto tempo, mas que acabou dando um sabor todo especial à sensação de vitória. Conquista evidenciada claramente pela tremedeira e pelas lágrimas que brotam naturalmente no canto do olhar. O não-saber-para-onde-ir, a preocupação com os que ficaram para trás e o estranhamento causado por uma rotina completamente nova parecem ser de uma naturalidade impressionante, estando enraizados nos pensamentos de alguém que viu sua própria vida dar uma guinada tão significativa. Dando um último olhar para todas as coisas, sejam elas mínimas ou máximas, peguei um pedaço de papel numa sala vazia para chamar de último TD. Uma casquinha dupla com meus sabores prediletos para chamar de último sorvete. Um agradecimento a cada professor, a cada funcionário e a cada colega de sala para chamar de última despedida. Uma lembrança para chamar de saudade. Não a última, mas aquela latente, do tipo que não abandona e que faz sorrir ao trazer de volta os momentos bons.

Fechei a porta ao sair.

domingo, 17 de janeiro de 2010

Que seja doce.


"Hoje eu saí de casa tão feliz, que nem me lembrei que em algumas horas a tristeza bate, me sacode e me faz sentir dores que eu não imaginava que continuavam ali..."

"...Mas eu tinha que ficar contente. E quando você quer, você fica. Comecei a ficar."



Duas citações diferentes que poderiam perfeitamente se encaixar. Algumas coisas na vida funcionam assim, afinal. Que a leveza que me acomete agora continue aqui por um bom tempo. O post é curto porque hoje eu quero viver. :)

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Relógio.


Acordei. Suor pingando na testa, marcas de lençol nas mãos. Argh, odeio essas marcas de lençol, na certa devem estar no rosto também. Pomada contra acne, sobrancelha recém-tirada como um adorno quase perfeito aos olhos grandes e profundos e duros, brilhando na escuridão de uma madrugada sem hora. E agora, faço o quê? Acabar com o calor, acabar com a insônia, acabar com a noite, acabar com essa teia fria e insípida que tem tomado conta dos meus dias, transformando-me em qualquer coisa que eu não era antes e seqüestrando-me do domínio de mim. Ah que ironia, logo eu, tão senhora dos meus atos. Logo eu, tão politicamente-correta-exemplo-pra-todo-mundo-tá-vendo-tá-vendo-como-ela-é-demais. Uma teoria: As pessoas me põem num pedestal pra não precisarem se aproximar de mim, pra não ser preciso o toque, o contato. Fato? Talvez. Pode até ser aplicado em alguns casos. Rasgo a noite com um riso. Um riso irônico, claro. Tudo muito largo, as ondas espalham-se pelo quarto e grudam-se no lilás das paredes escondidas pela negra ausência de luz. Belo quadro, não? A senhora dos próprios atos trancafiada no sem hora da noite. Daria um bom título, pra livro, talvez. Vou guardá-lo pra história que não escreverei. Mãos atadas, preciso comprar baterias pra minha lanterninha, sabe como é, preciso ler nessas horas. Não posso acender a luz, não posso incomodar ninguém, não posso, não. Não. Palavrinha dura, essa. Mas eu até gosto dela, como gosto de qualquer coisa que seja diferente de um silêncio, por mais difícil que seja. Será que eu deveria mesmo ter dito tantos nãos? Penso neles e nos nãos que desfizeram muitos planos. Nunca vou saber, que se há de fazer. Só sei que um banho cairia bem. Toalha, sabonete com cheiro de morango (mofado?), saio no escuro, tem gente que acredita que um banho de sais, por exemplo, leva os males embora. Não tenho sais, será que só a água serve? Se não servir, paciência. De qualquer maneira, tudo tanto faz. A noite quente cede às minhas estratégias de ataque. O calor já foi embora, mas ainda não tive coragem de olhar as horas. O tempo ainda me aflige. Um ano, vai fazer um ano. Já fez, fará. Um ano, dez, cem. Sem.

Com essa mínima palavrinha voando à minha volta, durmo quase imediatamente.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Para uma avenca partindo.


Sem mais. Não há o que dizer depois de palavras como essas.
Esperando vir um dia chuvoso, ambiente propício, música adequada. Meu livro do Caio finalmente chegou.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

"Alegrias e penas por aí..."


“Pensar é exercício de alegria
entre veredas de erro, cordilheiras de dúvida,
oceanos de perplexidade.
Pensar, ele o provou, abrange todos os contrastes,
como blocos de vida que é preciso polir e facetar
para a criação de pura imagem:
o ser restituído a si mesmo.
Contingência em busca de transcendência.”
(Drummond)

Oi, blog. Viu como eu tô evoluindo? Quatro postagens em cinco dias, quem diria! Hoje andei fazendo algumas coisas... hm... meio que fora do padrão. Uma vontade absurda de pôr as coisas em ordem. As internas são bem mais complicadas, mas nas externas pode-se dar um jeito. Não digo faxina, já que a genética definitivamente me privou de qualquer dote doméstico que vá além de fazer deliciosas trufas de chocolate com recheios privilegiados no quesito leite condensado. Nada disso. Arrumei papéis antigos, joguei muita coisa fora, consertei meu subwoofer - Dá pra acreditar que três das cinco caixas de som estavam com mau contato? Por isso eu sentia tanta falta de alguns instrumentos quando ouvia minhas músicas! Um absurdo! -, limpei meus óculos, organizei meus vestidos... Tudo isso ouvindo um Ray LaMontagne falando “I still care for you” num timbre rouco charmosíssimo. Aproveitei pra organizar umas coisinhas pro meu pai, uma pequena recompensa pelo carinho, já que ele vem ao meu quarto - o mais isolado da casa - inúmeras vezes ao longo do dia só pra me dar um beijo e constatar que: a) sim, eu ainda estou lendo; b) sim, tá tarde, mas não precisa apagar a luz que eu ainda estou lendo; c) sim, eu já terminei aquele livro, mas peguei outro logo em seguida e a fila literária anda. Aliás, voa. Estou prestes a bater um recorde, quatro livros em menos de um mês. Ah, férias. Por que você não chegou antes?




P.S.: As inúmeras citações ao Drummond não são por acaso. Li a metade de um livro dele durante um pedacinho da tarde. O resto dela foi dedicada a um som em volume relativamente alto, à arrumações de objetos pessoais e à adrenalina proporcionada por episódios quentíssimos de Prison Break. Por enquanto, tentarei conciliar a leitura de dois livros simultâneos, o que só será possível porque um deles é justamente de poesia. Sabe como é, uma viagem à Nárnia, uma pausa com o amor terno de Drummond. Quem sabe isso dá certo.

P.S.2: Post estranho, né? Parece diário. Mas enfim. Não me prenderei a estilos de escrita, assim como não me prenderei a muita coisa que me restringia antigamente. Sabe aquelas pequenas metas de ano novo? Pois é.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Oi? =D


"Para sonhar um ano novo que mereça este nome, você, meu caro, tem de merecê-lo, tem de fazê-lo novo. Eu sei que não é fácil, mas tente, experimente, consciente. É dentro de você que o Ano Novo cochila e espera desde sempre."
(Carlos Drummond de Andrade)

Hoje eu tô morrendo de vontade de... rir, sorrir, abstrair, distrair, desmedir. Sabe o que é você não ter nada pra fazer e resolver pôr uma música alto-astral no volume máximo? Pois é.
Valeu pelo impulso, Drummond.

domingo, 3 de janeiro de 2010

Motivo eu já nem sei.

Frio, cobertor, letras. Uma música ouvida antes do sono ainda presente no inconsciente. Vento sorrateiro mexendo de leve nos cabelos, que se movimentam quase imperceptivelmente. Crio coragem e pego o violão. O que ressoava na minha mente agora enche o quarto de sons melodicamente perfeitos para o momento. A voz do cantor transforma-se na minha, ainda fraca devido ao sono. O som da chuva mistura-se ao dos acordes e da voz. O cheiro da água batendo em telhados, em terra e em gente mistura-se ao cheiro de páginas novas do livro que descansa na mesinha de cabeceira e ao meu próprio cheiro, presente no cobertor que me abrigou durante mais uma noite fria de sábado. A janela, tão próxima da cama, permite a passagem de algumas gotículas, que, saindo das nuvens, vêm sutilmente molhar alguns fios de cabelo, a extremidade do braço do violão, a capa do livro, a ponta de meus dedos. Os minutos escorrem como se evaporassem no ar, cada instante do passado se desfaz involuntariamente enquanto um novo se apresenta de maneira fugaz, quase num pedido de desculpas por tamanha intransigência de aparecer sem ser chamado. A música acaba. Os braços descansam em cima do violão, num quase abraço que implora por um pouco de calor. O olhar concentra-se nas nuvens, que insistem em esconder o céu, e os pensamentos perdem-se na chuva, que, aos poucos, começa a passar.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Página em branco.


Sabe quando você não sente que um dia tá acabando? Pois é. O mesmo acontece quando um mês tá acabando, quando um ano tá acabando... Ou mesmo quando uma fase da sua vida tá acabando. O começo de algo novo é como o primeiro sopro de ar adquirido após um mergulho intenso. Revigora os pulmões, a alma sorri. Talvez pelo fato de que a contagem do tempo é algo puramente cronológico, inventado pelo imperfeito homem. O verdadeiro tempo, incontável, não nos pertence e encontra-se num nível superior ao que nós estamos. Nunca sabemos quando algo verdadeiramente acabou. Às vezes resta uma sombra, escondida, que retorna com todas as forças a cada vez que surge uma oportunidade qualquer, obscurecendo tudo ao redor. Outras vezes, porém, o sumiço acontece de forma tão sorrateira que nos espantamos ao constatar que as mudanças aconteceram. Ontem, à meia-noite, ao ver um milhão de pessoas comemorando um ano novo que chegava, essa sensação ficou bem clara pra mim. Na verdade não queria comemorar, pois acho que não andei tendo muitos motivos pra isso, mas queria, humildemente, pedir aos céus, aos orixás, aos deuses, aos santos, às divindades naturais... ao que quer que fosse, queria pedir uma leveza, uma serenidade, uma paz interior e exterior que contaminasse tudo e todos que estivessem ao meu redor, uma espécie de luz que tivesse o poder de atrair o máximo possível de acontecimentos e pessoas doces. Fáceis, acessíveis, simples, do bem.

O frio vem conforme o cobertor. Meu principal pedido foi que o meu cobertor continuasse sendo suficiente pra agüentar todo o frio que pudesse vir a me fazer mal. Que eu continuasse tendo a capacidade de sorrir e que a frustração e a decepção causada por algumas pessoas passasse a não mais me magoar. Ou, pelo menos, que essa mágoa se desse de forma menos prejudicial a mim mesma. Que eu mantivesse a minha espontaneidade, o meu caráter forte e o meu radar, que capta as hipocrisias que me cercam. Ah, que eu não queira mais palavras daqui pra frente. Que eu não fique mais feito tonta, esperando por uma mínima manifestação de carinho de quem me descarta como um livro velho de auto-ajuda. Sabe? Explodam-se os outros, o meu reveillon tinha que ser o melhor possível. E foi. Pra mim mesma. Não há como evitar um sorriso enquanto se ouve a Nona de Beethoven e o Bolero de Ravel enquanto uma chuva de cores ilumina os céus no lugar onde você está. Não há como evitar um sorriso enquanto se abraça uma das melhores pessoas do mundo e há o pensamento conjunto: “Estamos aqui, sozinhas, mas... olha, vencemos mais um. Mais um ano de muitos que já se foram e de muitos que ainda virão pra nós. Sozinhas por um lado, incontestavelmente unidas por outro.”

Católicos, budistas, evangélicos... Não interessa a religião. Todos pulavam as sete ondas, jogavam-se no mar, abraçavam-se, comemoravam. Todos com um pensamento de positividade pra receber uma página em branco prestes a ser preenchida por todos nós, pedindo a uma força superior – seja ela qual for – que faça com que esse preenchimento ocorra da melhor forma possível. Fica a lição de positividade, mesmo em face das piores decepções, dos mais trágicos acontecimentos, dos maiores períodos de tristeza, das vergonhosas derrotas... O frio vem conforme o cobertor. Que o meu seja bem resistente. Que 2010 seja doce.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Carta-crônica de tempos idos.

Lívia Vital, vital a mim!

Nem acreditei quando vi seu breve email com um simples "oi" constando como assunto. Menina, quanto tempo! Você não imagina a minha felicidade ao constatar que uma amiga tão querida, com quem eu não falo há anos, ainda lembra-se de mim. Não pude evitar um sorriso ao ler a parte em que você falava que agora eu estou uma mulher e que antes era uma menininha. É, amiga, muita coisa aconteceu. Não se espante com o estilo de escrita deste email nem com a sua provável longa extensão, mas é que eu mudei bastante de uns tempos pra cá. Uma das mudanças aconteceu com a minha maneira de escrever, como você já deve ter percebido. Sabe, você nem imagina, mas ultimamente eu ando precisando escrever. Uma necessidade urgente, como um ato proibido que é repentinamente permitido depois de um longo período de abstinência. Tanta coisa pra te contar, tanta coisa. Tantos meses, dias, horas e acontecimentos que se passaram e que foram responsáveis, direta ou indiretamente, pelas mudanças que me ocorreram! Estes emails provavelmente serão um ótimo pretexto pra te contar tudo. Talvez seja bom falar pra ti, que esteve distante o tempo inteiro e que não tem contato algum com ninguém que fez parte desse período (inclusive comigo, né, dona ausente). Perdoe-me a provável visão unilateral que eu possa vir a ter, acho que vou narrar como um Bentinho machadiano, mas vou fazer o possível pra que você tenha uma visão ampla do que me tem ocorrido nos pensamentos pra que você tire as suas próprias conclusões, já que as “principais” (entre aspas porque eu ainda tenho minhas dúvidas quanto a isso) pessoas que passaram pela minha vida pareciam não enxergar um palmo à frente do nariz e acho que continuam cegos até hoje. Mas, deixa isso pra lá, fica pra próxima. Melhor não contar nada agora, já que eu pretendo até postar este email no meu blog, quem sabe. Uma lição que eu tirei de tudo foi a de olhar só pra frente a partir de agora.

Fiquei imensamente feliz quando soube que você se casou. Parabéns, Li! Espero que esteja bem, aproveitando esse começo de uma nova fase de um relacionamento que só tende a se estabilizar com o passar dos anos. É sempre bom ver que as pessoas queridas estão conseguindo vencer em uma das principais conquistas que se pode ter na vida: tranqüilidade no coração. E o Lucas, tá bem? Deve estar um rapazinho agora. Sempre me lembro dele e de ti quando vejo Amélie Poulain. Prometa que vai transformar seu filho num completo viciado em literatura, hein. Eu farei isso com os meus, com absoluta certeza. Falando em literatura, o que eu mais tenho feito nos últimos tempos é ler. Descobri uma paixão avassaladora por História, que me tem feito devorar alguns milhares de páginas de conteúdos históricos que pra mim são interessantíssimos. O vestibular... Bom, ainda não sei se foi dessa vez. De qualquer maneira, aviso quando o resultado sair, o que acontecerá em meados de janeiro. Esse pensamento meio pessimista não é nem tanto pela prova, que foi razoável, mas pode ser justificado por algumas esperanças que eu andei nutrindo e que se foram frustrando numa velocidade absurdamente destrutiva. Então, a partir de agora, decidi carregar energia positiva dentro de mim e continuar fazendo o que posso pra alcançar o que quero, mas sempre me preparando pra pior das hipóteses. Sei lá, me sinto melhor assim. Depois que adotei essa atitude, as únicas surpresas que recebo são boas. Como é que alguém pode te decepcionar se você não esperava nada daquela pessoa? Impossível. Assim, se algo de bom vier a acontecer, por menor que seja, será sempre uma ótima surpresa.

E os planos pra 2010? Bom, eu não costumo mais fazer planos, mas há algumas possibilidades pro futuro relativamente palpáveis com as quais acho que posso contar. Tenho um estágio quase certo numa agência que trabalha com jornalismo cultural, assessoria de imprensa e que também atua como ONG. Parece ser algo promissor, andei pesquisando algumas coisas sobre a empresa e gostei muito do que descobri, acho que combina com o meu perfil. Talvez eu volte a estudar música clássica, quem sabe até montar um grupo de chorinho ou algo do tipo, sempre quis me aventurar e cantar aquelas músicas antigas que embalavam o tempo dos nossos avós. Mas, no momento, nada relativo ao futuro depende de mim. Saberei daqui a alguns dias se essas possibilidades poderão consolidar-se logo ou terão que esperar mais um ano.

No mais, flor, espero que a gente mantenha contato. Manda mais notícias, tá? Quero saber como tá a sua vida, o que tem feito. Trabalho, amor, moradia, família, essas coisas que a gente compartilha com quem a gente gosta e com quem merece a nossa confiança. Acho que estas palavras deveriam ser mandadas por carta, pelo correio, com tudo bonitinho, mas eu não ando com muito entusiasmo pra sair à rua. Tenho vivido numa bolha desde que entrei de férias, cercada de livros, de filmes e de música. Acho que, no fundo, era o que eu tava precisando depois de um ano tão difícil em vários aspectos. Espero que a intenção valha e que essa enxurrada de palavras não a tenha aborrecido. Se ainda tiver tempo de ler este email até o reveillon, um incrível ano novo pra ti e pra todo mundo de quem você gosta. Que 2010 seja doce pra você e pra mim. Boas festas, que a gente possa começar o ano com o pé direito e que nos seja permitido vivê-lo com os dois pés, as mãos e tudo o mais de que precisarmos pra atingir as nossas metas.

Te cuida, Li. Foi ótimo você ter aparecido.
Beijo, T.

domingo, 20 de dezembro de 2009

Pé de cachimbo.


Hoje é domingo e, na praia, o marido jogou um copo cheio de cerveja na direção da esposa porque esta o implorava para que ele parasse de beber. A mulher rica saiu do salão de beleza onde gastara uma quantia astronômica num corte de cabelo e pareceu nem notar a presença da criança que pedia esmolas na rua. O pai ausente, que passava a semana toda trabalhando, pegou a cerveja na geladeira e ficou a tarde inteira vendo futebol enquanto o filho brincava sozinho no quarto. A namorada insensível saiu da casa do namorado apressada e impaciente, não se dando sequer o trabalho de responder às declarações amorosas que dele recebera. A adolescente, que pensava ser popular, chorou sozinha porque tinham esquecido que aquele era o dia de seu aniversário. O rapaz solitário arrumou as malas, sabendo que não teria para quem trazer um colar ou um anel como presentes da viagem. A mãe solteira, que ficava o tempo todo ansiando por um final de semana com o filho, entristeceu-se ao ver que ele preferia ficar o dia inteiro jogando videogame a ter a companhia dela. A menina sonhadora escreveu cartas para aquele que provavelmente riria dela e a desprezaria se um dia lesse aquelas palavras. A senhora de cabelos brancos, abatida pelo tempo e pelo cansaço, afligia-se porque não conseguia lembrar direito do dia em que se casou com seu falecido marido. A moça solitária tocou violão no seu quarto e desejou que alguém estivesse ali, enquanto observava o pôr-do-sol da sua janela. A mulher inteligente e infeliz no casamento sentiu que a sua vida poderia estar sendo muito diferente ao reencontrar um antigo colega de faculdade e receber dele um abraço carinhoso e nostálgico depois de tantos anos.

Hoje é domingo. Só mais um domingo no meio de tantos outros dias que nascem e morrem, encurtando as nossas vidas. A cada domingo que passa, no qual aceitamos as situações ruins, parecemos ter a certeza de que não agüentaremos a próxima segunda-feira. Tão tolos somos nós, completamente cegos para o fato de que as mudanças residem aqui dentro, no âmago, onde a contagem do tempo não alcança e não ameaça, e os domingos nada são além de um conjunto de sensações que morrem junto com o fim da madrugada.

sábado, 19 de dezembro de 2009

Alguns trechos de leituras esporádicas selecionados por motivos absurdamente adoráveis.

É como se fosse a primeira vez de uma troca de olhares, de um "começo de qualquer relacionamento", coisas do tipo. Mesmo que fique na amizade, é bom. Tô me sentindo bem depois do impacto que tive ontem, tô razoavelmente bem. E que seja doce, independente do que aconteça daqui pra frente, que seja doce.

~x~

Não chegaram a usar palavras como "especial", "diferente" ou qualquer coisa assim. Apesar de, sem efusões, terem se reconhecido no primeiro segundo do primeiro minuto. Acontece porém que não tinham preparo algum para dar nome às emoções, nem mesmo para tentar entendê-las.

~x~

Saudade saudade saudade saudade saudade saudade saudade saudade. Amor amor amor amor amor amor amor amor amor amor. Todos os beijos já existentes e não existentes todos os beijos os beijos dados mais os que estão por dar. Não se perca. Não se esqueça. Viver bem é a melhor vingança.

~x~

É você quem sorri, morde o lábio, fala grosso, conta histórias, me tira do sério, faz ares de palhaço, pinta segredos, ilumina o corredor por onde passo todos os dias.

~x~

Anyway, me dói a possibilidade de um não, me dói a possibilidade de um silêncio, me dói não saber de que forma chegar a ele, sacudi-lo, dizer ‘me olha, me encara, vamos ou não vamos nessa?’ Bueno, os dados estão lançados, e agora só me resta lavar as mãos sujas do sangue das canções.

~x~

Não há nada a temer se você realmente se sente como eu.

~x~

Uma relação bonita, que eu quero preservar e deixar crescer. Imagino que ele também.

~x~

Desculpa, digo, mas se eu não tocar você agora vou perder toda a naturalidade, não conseguirei dizer mais nada, não tenho culpa, estou apenas me sentindo sem controle, não me entenda mal, não me entenda bem, é só esta vontade quase simples de estender o braço para tocar você, faz tempo demais que estamos aqui parados conversando nesta janela, já dissemos tudo que pode ser dito entre duas pessoas que estão tentando se conhecer, tenho a sensação impressão ilusão de que nos compreendemos, agora só preciso estender o braço e, com a ponta dos meus dedos, tocar você, natural que seja assim: o toque, depois da compreensão que conseguimos, e agora.

~x~

EU - É possível um rio secar completamente?
ELA - Claro que é.
EU - Mas será que ele não enche depois? Nunca mais?
ELA - Alguns sim, outros não.
EU - Mas nunca mais?
ELA - Sei lá, acho que não.
EU - Você tem certeza?
ELA - Certeza eu não tenho. Só estou dizendo que acho. Afinal não sou nenhuma especialista em matéria de rios, secos ou não.
EU - Sabe?
ELA - O quê?
EU - Eu tinha esperança que o rio voltasse a encher um dia.

~x~

Preciso realmente dizer quem é o autor?
Acho que não, né.