sábado, 5 de junho de 2010

Das redundâncias


Eu tinha um começo para este texto. Ele veio até mim horas atrás, mas, ao elaborar as primeiras palavras, decidi que ele não seria digno de escrever-se e o desprezei. Joguei no lixo um princípio que sequer tivera a chance de se desenvolver (será que sempre faço isso com tudo?) e agora procuro lembrar-me da frase inicial, obviamente sem sucesso. Como uma “questão de honra”, uma pequena teimosia comigo mesma, decido recomeçar a escrever, mesmo sem o início de outrora. As mesmas palavras que anseiam por transmitir sempre a mesma mensagem, numa eterna repetição que beira o banal. Minha característica redundância que, creio eu, tem como único objetivo o de se fazer ouvir, carregando a vã esperança de que algum super-herói intergaláctico intervenha e me salve dessa busca incessante por um mínimo de cor no quadro pálido ou por um resquício qualquer de som numa trilha sonora silenciosa. Sempre a mesma madrugada, sempre o mesmo frio, sempre a chuva que me visita no meio do processo de escrita (hoje não poderia ser diferente), sempre a mesma escolha temática e lexical, sempre o mesmo olhar perdido na palidez iluminada da noite.

Comecei sem início porque foi assim que me fiz. Trajetória interrompida, história contada pela metade. Acho que sou um personagem que sequer existe. Uma gravação que se repete e que se grava por cima de si mesma, disfarçando-se maravilhosamente bem para todos e para si mesma numa máscara de completude. Um dia, quem sabe, eu possa ouvir o que verdadeiramente está gravado em mim.

2 comentários:

- Tetê - disse...

Acho que a melodia vai surgindo aos poucos, mas a música, não tenho esperança de ouvi-la.

Tamyle Dias Ferraz disse...

isso já aconteceu demais comigo: eu ter uma frase inicial e ela se perder, ou então eu perder o propósito inial do texto.