sábado, 30 de maio de 2009

Agridoce (Sobre a abrangência de duas letras).


Cansado, cansado. Quase não havia dormido. De repente, como se emergisse de algum transe, abre seus olhos num sobressalto. Sim, a plataforma continua ali. Não foi um sonho. Moveu sua cabeça um pouco, procurando o melhor ângulo para que seus olhos atingissem diretamente as malas. Eram poucas, simplórias. Levavam apenas tecido, música, páginas, cenas... e um porta-retrato vazio. Ele repousava suas mãos na superfície daquele banco, procurando sentir a umidade advinda do recente nascimento da manhã, que ainda guarda as lágrimas deixadas pela chuva ao anunciar a despedida da noite. Ali, esperando aquele trem, ele também se despedia. Não da maneira tradicional, já que clichês não o atraem. Foi sutil ao distanciar-se de algumas vidas sem deixar claro que pretendia esvair-se delas. Dos poucos objetos que levava consigo, fizera questão de deixar apenas as lembranças. Uma exceção? O porta-retrato. Ao contrário dos outros componentes daquelas malas, ele deixara o objeto principal para trás e o levava apenas na memória.

O caminho até aquela situação iminente tornava-se mais difícil a cada passo dado. Na verdade, queria muito ser lembrado, queria muito não precisar ir. Tentava encarar aquele começo de manhã como se fosse normal, uma mera saída em que sua rotina mudaria ligeiramente. Chegou ao ponto de desejar ouvir uma daquelas canções leves, que se escuta ao nascer de um domingo praiano. Não funcionou. O silêncio era necessário, os pensamentos eram necessários. Torcia com todas as suas forças para não ser esquecido, apesar de ter plena consciência de que o esquecimento provavelmente seria a saída mais palpável.

Sentia muitas saudades daquela cidade, mesmo sem tê-la deixado ainda. Será que ainda pisaria ali de novo? Será que ainda ouviria aquelas vozes, andaria por aquelas ruas ou veria aqueles rostos? Por via das dúvidas, preferiu despedir-se levemente a ter que encarar sofríveis lágrimas reveladoras. Em seu julgamento pesado, pensado e repensado, fizera o certo. Tinha medo de que o esquecessem, mas tinha plena certeza de que nunca os esqueceria. O sol, a ponte, o chão daquela casa, os gestos. Estava tudo tão nítido em sua mente que ele quase conseguia tocar todas as imagens e detalhes. Ao pensar no que deixaria para trás, seus dedos crisparam-se, como se quisessem ficar eternamente agarrados àquele banco gélido de estação de trem.

A espera estava longa demais e seus esforços para não pensar nela começavam a ficar vãos. O vazio de sua mente dava lugar a uma imagem totalmente branca, com uma singular figura central, que tinha os olhos docemente fixos em sua direção, exalava feminilidade e parecia saber o exato teor de seus pensamentos desde o começo. Ela sempre foi exacerbadamente sábia, e o vestido vermelho que trajava era o mesmo daquela tarde em que ele se despedira e ela não parecera entender. Por que essa sensação ruim insistia em continuar nele? Afinal, o propósito de tudo era deixá-la livre para viver e continuar distribuindo a luz que insistia em emanar daqueles olhos que dele fugiam. Sim, talvez ela entendesse. Se não agora, depois. Quando a ausência dele se materializasse.

Uma voz conhecida o tirou das divagações e só então ele percebeu que estivera com os olhos fechados por algum tempo. O vão claro e vermelho que dominara o seu pensar tinha dado origem a outro sobressalto. A única pessoa no seu campo de visão era uma velha senhora sentada com um rádio no colo. Mal teve tempo de pensar no porquê daquilo ter causado a interrupção do seu fluxo de memórias, logo percebeu que o trem vinha apressado e devastador para tirá-lo daquele lugar. Ele parou, pegou as malas, procurou um vagão razoável e sentou-se. De onde estava, era possível ver a velhinha um pouco mais de perto e até ouvir nitidamente a música que o rádio dela tirava de si, com o esforço de pilhas baratas. Eram versos conhecidos, que ele, muitas vezes, costumava cantar junto ao seu negro violão. Saio sem alarde / sei que já vou tarde / não tenho pressa / nada a me esperar...

Ouvindo aquela canção, o trem partiu, ganhando velocidade à medida que o volume do rádio diminuía. Ele estava sendo arrancado dali aos poucos e sentia-se aliviado ao se dar conta de que certos impropérios não mais faziam parte da sua vida. Preferia não pensar em todas as situações que, em algumas épocas, fizeram-no sentir a pessoa mais preciosa do mundo. Aqueles pensamentos acabariam deixando-o mais machucado do que já estava. Melhor pensar que tomara a atitude correta, que a sua partida deixaria o caminho livre para uma felicidade merecida e que talvez, depois de algum tempo, conseguiria lembrar de tudo apenas com uma saudade contida.

Enquanto via aquelas ruas familiares pelo que temia ser a última vez, pensava no porta-retrato vazio dentro de sua mala. Imaginava aqueles olhos tão incríveis visualizando a cena impressa na foto que, um dia, estivera ocupando aquele espaço retangular de madeira. Ela, agora, era dona do seu objeto mais importante. No verso daquele papel deixado para trás, uma caligrafia que ele esperava que ela nunca esquecesse. Queria ter dito tudo o que se encontrava no seu coração e nos seus pensamentos, mas só conseguira escrever uma palavra: Se.

3 comentários:

Paola disse...

"Não posso ficar nem mais um minuto com você... Sinto muito amor, mas não pode ser (...) Se eu perder esse trem que sai agora (...) Só amanhã de manhã" xD HAUSDHUSAHDUASHUD Okey, parei. Eu conheço MUITO BEMMM³³ esse violão negro, senhorita! E esse "se", ja ouvi várias vezes. Caraaan... Diz pra esse cara aí q um dia essa foto volta pro porta-retrato... Lugar de onde nunca deveria ter saído. Os terceiros... bom eles que entendam como quiserem

- Tetê - disse...

Não sei se é muita pretensão ou se é muito menosprezo. Talvez seja o hábito de desistir das coisas simples.

Josh disse...

Ahhh!!! Outra maravilha...

Gostando muito da sua escrita..

Idéia ousadas em mais um conto de primeira!!!

Parabens... :)

Impossivel não ler e entrar dentro da história...