segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Domingo.

Acordou cedo, como de costume. Estudou um pouco, tocou violão, viu trechos de documentários. Saiu para almoçar e viu um saco plástico voando a uma altura imensa. Ele parecia dançar no ar. Ficou olhando aquilo em contraste com o azul tão límpido do céu até o dançarino branco sair do seu raio de visão. Andou mais rápido, que o sol escaldava.

Algum tempo depois, se via parada em frente a um cesto enorme cheio de bichos de pelúcia em um hipermercado qualquer. Unicórnios, ursos, macacos, tigres, cavalos. Alguém comentou sobre o olhar de felicidade que algumas pessoas lançam quando vêem bichos de pelúcia. Ficou imaginando o seu próprio olhar naquela situação. Devia estar radiante. Pensou em comprar um daqueles, pensou na companhia que eles fariam durante a noite. Mas pensou também que, para se ter um daqueles, teria que pensar em alguém todas as vezes que visse o cavalo, ou o unicórnio, ou o urso. E não haveria lembrança nenhuma a não ser a daquela tarde de domingo e daquela pessoa falando sobre os olhares. Não, não se podia adqüirir um tão facilmente assim. Chegou à conclusão que essas coisas não foram feitas para serem compradas e, sim, para serem presenteadas.

Uma leve melancolia estabeleceu-se ali. Pegou um tigre por quem se afeiçoara instantaneamente. Não era muito grande nem muito caro. Também não era o mais cobiçado. Era só diferente dos outros. Olhou demoradamente para o tigre e teve de soltá-lo ali, bem em cima da pilha de bichos. Sem despedir-se, saiu pensando não ser feita para tais coisas, para tais presentes, para tais brilhos no olhar.

Chegou em casa acometida de uma saudade avassaladora. Era tanta e tão intensa que quase se podia ver, ouvir e tocar. Era a barragem de um rio, não agüentando a pressão das águas e fragmentando-se, inundando tudo num raio de infindáveis extensões de terra. Tentou voltar a estudar, não conseguiu. Tomou um banho demorado, cuidou dos cabelos, viu um filme.

À noitinha, recebeu uma ligação. Soube que uma pessoa espalhara veneno na rua em que sua mãe morava antigamente, matando oito gatos da vizinhança. Oito famílias foram despedaçadas. Entre os que morreram estava o gato de sua própria mãe, que ela presenteara para que sua genitora não se sentisse sozinha ao levar a nova vida. Aquele gato tão carinhoso, que doava um afeto tão gratuito, mas que teve de ser deixado aos cuidados de uma vizinha quando se deu a mudança para outros ares. Foi-se também o gato de uma criança por quem ela tem um carinho enorme. O coração daquela loirinha de olhos azuis faiscantes, já frágil pela leucemia, foi terrivelmente abalado pela perda de um dos seus únicos companheiros. Depois do acontecido, ela teve crises graves e passou bem perto da Morte. Graças a Deus, passou apenas perto.

Foi levada a pensar em como seria sua vida sem uma das pessoas que mais ama. Sentiu dor, sentiu vazio, lembrou de muitas situações. Mas esse assunto trouxe alívio também, por saber que essa pessoa continuaria ali e ainda compartilharia inúmeros sorrisos com ela.

Decidiu dormir, que estava precisando. Não conseguia. Acometida pela saudade novamente, torcia para que o feriado acabasse logo. A loucura da rotina apaziguava um pouco esse fluxo de sentimentos estranhos. Mas, ao invés do sonho, continuava vindo saudade. Pensou nos bichos de pelúcia e pensou no que a sua vida vinha reservando para ela ao longo dos últimos tempos. Imaginou o sorriso daquelas crianças empobrecidas, ao ganhar um brinquedo usado por outros que não o valorizam tanto. Elas cuidam com tanto zelo e com tanto amor daquilo que, para as outras, não tem o mínimo significado... Ela sabe como é esse sentimento. Mas agora não passava de uma teoria. No momento, se punha no lugar daquelas crianças que não têm sequer os tais brinquedos usados. Ficam felizes apenas em observar o comportamento das que podem espalhar o amor que têm dentro de si. Pediu a Deus que lhe desse sono e que lhe desse força para continuar. Ambos os pedidos foram atendidos. Apesar das poucas horas de sono, levantou-se no horário habitual, com uma vontade incorrigível de estar linda e de rir até as bochechas doerem.

Um comentário:

Paola disse...

Ele disse uma vez que o Sol sempre viria no dia seguinte. Quer prova mais viva q essa? :*